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Viva os 169 anos do natalício da camarada Clara Zetkin!

Clara Zetkin.

Pela passagem do natalício da grande dirigente comunista Clara Zetkin no dia 5 de julho passado, quando completou 169 anos de seu nascimento, publicamos adaptação do artigo do MFP publicado em julho de 2023.


“A luta de emancipação da mulher proletária não pode ser uma luta similar à que desenvolve a mulher burguesa contra o homem de sua classe; ao contrário, a sua é uma luta que vai unida à do homem de sua classe contra a classe dos capitalistas […] Quais são as conclusões práticas para levar nossa agitação entre as mulheres? […] O princípio guia deve ser o seguinte: nenhuma agitação especificamente feminista, senão agitação socialista entre as mulheres. Não devemos pôr em primeiro plano os interesses mais mesquinhos do mundo da mulher: nossa tarefa é a conquista da mulher proletária para a luta de classes. Nossa agitação entre as mulheres não inclui tarefas especiais. As reformas que se devem conseguir para as mulheres no seio do sistema social existente já estão incluídas no programa mínimo de nosso partido. […] A inclusão das grandes massas de mulheres proletárias na luta de libertação do proletariado é uma das premissas necessárias para a vitória das ideias socialistas, para a construção da sociedade socialista.”

Clara Zetkin, 1896, no Congresso em Gotha, em seu importante primeiro informe sobre a questão feminina.

Clara Zetkin, registrada Clara Eissner, nasceu na Alemanha em 5 de julho de 1857. Seu pai era professor e sua mãe provinha de uma família burguesa. Estudou num colégio universitário para ser professora e ali entrou em contato com diversos membros do movimento operário da Alemanha, além de conhecer vários revolucionários russos exilados. Logo se viu atraída pelas ideias comunistas e, em 1881, uniu-se ao Partido Socialista dos Trabalhadores, que depois mudaria o nome para Partido Social-Democrata Alemão. Um ano depois conheceu Ossip Zetkin, revolucionário russo exilado, com o qual teve dois filhos.

Na década de 1880, o chanceler da Alemanha, Otto von Bismarck, proibiu toda associação e atividade relacionada com o comunismo no país, razão pela qual Clara e seu esposo foram obrigados a se refugiar em Zurique [Suíça] e depois em Paris [França]. Durante o desterro, Clara entrou em contato com dirigentes do movimento operário francês, incluindo as filhas de Marx e seus maridos, vivenciando o duro dia a dia das mulheres proletárias. Sustentava seus dois filhos, trabalhava como professora e continuava recrutando mulheres para a causa comunista e para luta feminina revolucionária. Quase dez anos depois regressaria à sua Alemanha natal (em 1891).

Sua própria experiência marcaria seu trabalho político posterior. Convencida da importância das mulheres no movimento revolucionário, Clara afirmava com tenacidade em seus incisivos discursos que a luta das mulheres e a luta comunista deviam marchar juntas, o que repercutia profundamente em seus companheiros e companheiras de partido. Dessa forma, as ideias da luta feminina revolucionária foram se impondo, tendo como norte a libertação da classe e a emancipação das mulheres através da revolução proletária, ideias duplamente revolucionárias para a época. Na década de 1890, Clara fundou a Secretaria de Mulheres para recrutar milhares para o Partido Comunista.

Para plasmar suas ideias, Clara Zetkin se tornou editora do jornal de mulheres Igualdade, publicado entre 1892 e 1917. Em suas páginas defendeu a importância do trabalho como uma condição indispensável para a independência econômica da mulher.

Em meio à Primeira Guerra Mundial, Zetkin, Rosa Luxemburgo e Karl Liebknecht se opuseram à política chauvinista e pró-imperialista do Partido Social-Democrata Alemão, pois o partido fez um pacto com o governo para suprimir as greves operárias durante a guerra. Em 1915, Zetkin organizou uma conferência internacional de mulheres socialistas contra a guerra e, por isso, foi presa várias vezes. Já em 1916 se separam do partido revisionista liderado por Bernstein e fundam a Liga Espartaquista e o Partido Social-Democrata Independente da Alemanha.

Depois da Revolução de Novembro de 1918 na Alemanha, seguiu-se a fundação do Partido Comunista da Alemanha em 1º de janeiro de 1919. Clara e outras companheiras, tais como a revolucionária Rosa Luxemburgo, uniram-se ao partido revolucionário no embalo da experiência da grande União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, na Rússia, fundada em 1917. Entre 5 e 12 de janeiro ocorreu uma série de greves e lutas armadas em Berlim, conhecidas como Levantamento Espartaquista, aplastado pelas forças do governo com a cooperação dos revisionistas do Partido Social-Democrata Alemão.

CLara Zetkin com Rosa Luxemburgo.

Clara Zetkin foi membro do Comitê Central do Partido Comunista até 1929, bem como participou do Comitê Executivo da Internacional Comunista de 1921 até 1933. Além disso, teve um destacado papel no internacionalismo proletário ao ser presidente da associação de solidariedade internacional Socorro Vermelho. Em 1932, presidiu a sessão inaugural do parlamento alemão por ser a pessoa mais velha a convocar o enfrentamento aos nazistas, que se encontravam no salão.

Clara Zetkin faleceu em 20 de junho de 1933, aos 76 anos, na União Soviética, exilada pelos nazistas depois que o Partido Comunista foi colocado na ilegalidade por Hitler.

Parte II

Vanguarda na luta pela emancipação feminina

Ela não subestimou um só momento a luta pela emancipação feminina a qual deu grande importância, uma vez que, sob o regime imperial na Alemanha, as mulheres eram proibidas de participar de organizações e reuniões políticas. Somente em 1902, após muitas mobilizações, essa lei foi alterada, mas, ainda assim, as mulheres tinham que se organizar de forma separada dos homens.

Vanguardeado por Zetkin, o Partido Operário Social-democrata Alemão criou uma seção de mulheres que contribuiu com a organização e liderou a primeira conferência internacional de mulheres socialistas, buscando infundir no movimento feminino os princípios estratégicos do proletariado, demarcando com as feministas burguesas, que reivindicavam o voto feminino, mas não defendiam os interesses das operárias nem questionavam a exploração capitalista sobre as mulheres trabalhadoras. Lutou com coragem e ousadia, uma vez que além da proibição legal para a organização das mulheres, havia também a resistência passiva entre os próprios homens nos partidos.

Entre seus camaradas de luta, Zetkin travou uma forte luta política sobre o papel das mulheres na vanguarda revolucionária, confrontando desvios revisionistas que contestavam, inclusive, a atuação das mulheres na própria produção industrial: “o trabalho das mulheres é um mal capitalista […] A natureza da mulher é pôr no mundo e educar seus filhos. O socialismo restabelecerá a família em sua forma patriarcal”, afirmava Edmund Fischer, um dos precursores do Partido Social-Democrata. Contra essa posição conservadora e reacionária, Clara sustentava que a emancipação da mulher dependia também da sua incorporação no processo produtivo.

Após anos de batalhas e tendo conquistado espaço no próprio partido, defendeu também na II Internacional1 a igualdade de direitos entre homens e mulheres nos partidos social-democratas e nos demais órgãos de organização da classe, como os sindicatos e associações operárias. Sempre ligando a luta teórica e política com a mobilização e organização das massas, trabalhou incansavelmente em campanhas de sindicalização das operárias e dedicava-se permanentemente às tarefas de instrução política e teórica delas. Para Zetkin “a incorporação de grandes massas de mulheres trabalhadoras à luta pela libertação do proletariado é um dos pré-requisitos pra vitória da ideia socialista e a construção de uma sociedade socialista”. Por isso é necessário que no partido haja uma “ação para despertar a iniciativa da mulher trabalhadora, para destruir a sua falta de confiança em sua própria força, e mobilizá-la no trabalho prático no campo da organização e da luta, pra fazê-la compreender através da realidade que cada conquista do partido comunista, que toda ação contra a exploração capitalista, é um progresso que alivia a situação das mulheres.”

Portadora de ideias à frente de sua época, Clara denunciou a hipocrisia do casamento burguês, a livre escolha sobre ter ou não filhos e o acesso aos métodos contraceptivos. Também defendeu uma educação laica, igualitária e mista, tendo produzido importantes reflexões sobre pedagogia e educação.

Clara Zetkin e Alexandra Kollontai na Conferência de Mulheres Comunistas de Moscanel, 1921.

Propagandista

Fruto de sua posição revolucionária ativa e de sua defesa intransigente das trabalhadoras, Zetkin foi responsável pelo avanço da agitação e propaganda marxistas, que antes era uma tarefa exclusivamente masculina. Seu trabalho como redatora-chefe do jornal “A igualdade” garantiu uma maior participação feminina e um aumento exponencial do partido: em 1902, essa imprensa possuía quatro mil assinantes e, em 1914, esse número chegou a 125 mil.

Compartilhou com o grande Lenin a obstinação em elevar a participação feminina na revolução. Para a Chefatura da revolução de outubro o movimento de mulheres era parte integrante e decisiva do movimento de massas. Lenin reconhecia o papel insubstituível das mulheres na grande revolução russa, e defendia que a trabalhadora tivesse igualdade com o trabalhador não só nas leis, mas também na vida.

Considerado por Clara como “Chefe político e amigo”, Lenin frequentemente intervia pessoalmente para animar e convocar as mulheres a participarem cada vez mais nos órgãos de decisão e de organização da nova sociedade. Certamente é consequência disso o grande protagonismo feminino no Partido, no Estado e em diversas estruturas de organização da sociedade soviética.

Antirrevisionista convicta

Clara não foi uma revolucionária de ocasião, pelo contrário, lutou e trabalhou toda a vida pela causa do comunismo, contribuindo enormemente com todas as batalhas políticas e ideológicas que prepararam o proletariado para romper a cadeia de dominação imperialista na Rússia. Tomou posição e travou duras lutas contra o oportunismo dentro do Partido Operário Social-democrata Alemão e combateu na II internacional o crescimento de posições oportunistas e chauvinistas, já que sob a cobertura da podre tese de “guerra defensiva” os oportunistas e revisionistas da II internacional, encabeçados pelos traidores chefes do partido social-democrata alemão, cerraram fileiras com a grande burguesia imperialista de seus respectivos países e lançaram a classe operaria à matança na injusta guerra imperialista.

Quando a traição dos oportunistas do Partido Social-democrata alemão fica escancarada na votação dos créditos de guerra pelos deputados social-democratas no parlamento alemão, Clara compreende a importância da cisão e participa junto a Rosa Luxemburgo e Karl Liebknecht da fundação da Liga Espartaquista. Com o assassinato de Rosa e Karl, Clara passa a trabalhar mais estreitamente junto a Lenin na Rússia. Viveu de 1920 e até o fim de sua vida na URSS, principalmente em Moscou, viajando apenas de vez em quando a países estrangeiros.

Anti-imperialista e antifascista

A ativa participação de Clara Zetkin nos trabalhos da Organização Internacional de Ajuda aos Revolucionários (O.I.A.R.) e na organização de uma frente única de solidariedade proletária constitui um dos seus méritos ante o movimento operário internacional. Foi eleita e sistematicamente reeleita presidente do Comitê Executivo da O.I.A.R., desde 1924 até os seus últimos dias. Foi também uma das fundadoras e dirigentes do Socorro Vermelho Internacional.

Na Segunda Conferência Internacional de Mulheres, em Copenhague, Dinamarca, que tratava principalmente sobre o voto feminino, a proteção social às mães e da organização internacional das mulheres, Clara Zetkin e outras delegadas alemãs propuseram a criação de um dia internacional de luta das mulheres, em defesa da mulher trabalhadora. Lembrou a heroica luta das operárias têxteis de Nova Iorque duramente reprimidas em 1857 e 1909, onde 130 mil operárias têxteis foram as ruas contra o assassinato de 140 mulheres queimadas numa fábrica. Nos anos iniciais o Dia Internacional da Mulher Trabalhadora foi celebrado em datas diferentes em várias partes, mas sempre marcado por forte conteúdo classista.

No congresso socialista internacional realizado em 1912 na cidade de Basiléia, convocado por motivo da guerra dos Bálcãs e da ameaça de uma guerra mundial, Clara Zetkin conclamou as mulheres trabalhadoras à luta decidida contra os fomentadores da guerra imperialista. Fez um discurso apelando às mães de todo o mundo. Nesse discurso sustentou que não se concebe um movimento de massas pela paz sem a participação das mulheres proletárias, e que a paz estará assegurada somente quando uma esmagadora maioria das mulheres de todo o mundo aderirem à luta pela causa da paz, pela causa da liberdade e da felicidade da humanidade; e convocou todos a combaterem a guerra imperialista sob a palavra de ordem de ”Guerra à Guerra!”.

E foi com esse espírito que as comunistas bolcheviques e as operárias Russas empreenderam as grandes greves, motins, saques e mobilizações por “Pão, Paz e Terra”, fundindo para sempre o 8 de março como dia de luta das mulheres trabalhadoras junto a classe operária, e iniciando as jornadas de luta que culminaram na tomada do poder pelo proletariado em outubro de 1917.

Clara Zetkin foi camarada de armas do camarada Stalin e trabalhou ao seu lado após a morte de Lenin, tendo tomado posição pela esquerda junto ao camarada nas lutas contra Trotsky e Bukarin, pela unidade do partido e nos grandes desafios da edificação socialista.

Clara acompanhou com atenção a acensão do fascismo na Alemanha, odiou profundamente os revisionistas da social-democracia, que preparou o terreno para o pior inimigo da classe operária.

Analisou o fascismo como “consequência do abalo e do declínio da economia capitalista e um sintoma da decomposição do Estado burguês”. Uma resposta reacionária ao triunfo do proletariado, sua antítese. Compreendeu a dimensão do perigo nazifascista e suas defesas foram contundentes quanto à atuação de uma frente ampla e unitária com os setores mais progressistas da sociedade contra o fascismo. Reprovava os posicionamentos dos comunistas alemães, que não deram a devida atenção aos diversos trabalhadores que, enganados pela social-democracia e desesperançosos com a crise econômica, aderiram ao partido nazista.

Apesar de todos os riscos e ameaças, Clara Zetkin carregou até o fim de sua vida a certeza de que o nazismo seria derrotado. Durante uma assembleia parlamentar, com a maioria de deputados nazistas, posicionou-se. Então com 75 anos, Zetkin enfrentava as dificuldades da idade avançada, sujeita a desmaios e beirando à cegueira. Apesar disso, subiu na tribuna e denunciou o “terror exercido pelos fascistas” e a “covardia do liberalismo burguês”.

Heroína do proletariado internacional

Na celebração do seu 75º aniversário o Comitê Central do P. C. (b) da U.R.S.S. expressou sua homenagem a Clara Zetkin nos seguintes termos:

“O Comitê Central do Partido Comunista (b) da U.R.S.S., à camarada Clara Zetkin.

O Comitê Central do Partido Comunista (b) da U.R.S.S., envia uma calorosa saudação bolchevique, no dia do seu 75.° aniversário, a uma veterana do movimento operário internacional, intrépida porta-voz da revolução proletária, à mais antiga dirigente da Internacional Comunista, à amiga e companheira das massas trabalhadoras da U.R.S.S. e à lutadora pela libertação da mulher trabalhadora. Companheira de armas de Engels, lutastes incansavelmente contra o oportunismo na Segunda Internacional e com toda a força da vossa grande inteligência e de vossa paixão revolucionária vós vos erguestes contra as opiniões de Bernstein, contra o revisionismo. Nos dias em que deflagrou a guerra mundial, quando os chefes da Segunda Internacional se deixaram vergonhosamente atrelar ao carro do imperialismo, vós, na companhia de Lenin, na companhia de Rosa Luxemburgo e Karl Liebknecht, levantastes bem alto a bandeira do internacionalismo proletário. Estivestes conosco também nos dias de Outubro e nos dias da guerra civil quando a contra-revolução mundial tentava sufocar o primeiro Estado Proletário do Mundo. Abnegada amiga da U.R.S.S., encontrai-vos sempre no posto de combate quando o inimigo ameaça o país dos Soviets. O Comitê Central do Partido Comunista (b) da U.R.S.S. manifesta os seus votos de felicidade e a firme certeza de que lutareis, ainda por muitos anos, nas primeiras fileiras da Internacional Comunista.

C. C. do P. C. (b) da U.R.S.” (Pravda, de 5 de julho de 1932, Moscou).


Nós do Movimento Feminino Popular reafirmamos o legado dessa grande heroína do proletariado internacional, seu exemplo de vida dedicada às massas e à revolução proletária mundial!

Honra e glória eternas à Clara Zetkin!

1 Organização internacional da classe operária fundada em 1889. Criada com o concurso direto de Friedrich Engels, a II Internacional contribuiu para a difusão das ideias do marxismo, para o desenvolvimento do movimento operário de massas e para o fortalecimento e crescimento dos partidos socialistas. Nos confins dos sécs. XIX e XX reforçou-se gradualmente a influência dos elementos oportunistas que enveredaram pela via de uma revisão da doutrina de Karl Marx. No início da Primeira Guerra Mundial (1914), os líderes da II Internacional alinharam pelas posições do social-chauvinismo e aliaram-se à política imperialista de defesa dos “seus” governos burgueses respectivos, traindo a causa do socialismo e do proletariado e provocando a falência da II Internacional. O partido bolchevique dirigido por Lênin travou uma luta irreconciliável contra o oportunismo e o social-chauvinismo. NR

Nota:

A primeira parte do texto é uma adaptação do artigo “160º natalício de Clara Zetkin” do jornal El Pueblo, órgão da imprensa popular e democrática do Chile, publicado no jornal A Nova Democracia em xx de julho de 2017. A segunda parte do texto é de autoria do MFP.

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