8 de Março Atividades Destaques

SP: Grande manifestação no 8 de Março sacode a Zona Norte de São Paulo

Reprodução A Nova Democracia.

No dia 8 de março, Dia Internacional da Mulher Proletária, foi realizada uma vitoriosa manifestação no Parque Novo Mundo, bairro da Zona Norte da capital paulista. O ato representou um marco histórico no bairro, pois aglutinou moradores em repúdio aos casos de feminicídio que têm acontecido no Novo Mundo e avançou decididamente até o fechamento da Marginal Tietê, principal via da região.

A concentração do ato aconteceu às 14h e contou com a presença de vários moradores da favela das Casinhas e outras comunidades próximas, além de representantes dos coletivos Mulheres da Várzea, Povo Pelo Povo e Semeadores do Novo Mundo, do Movimento Feminino Popular, e de familiares e amigos da jovem Taynara — moradora covardemente assassinada em um caso de repercussão nacional —, além de familiares de outras mulheres vítimas de feminicídio. Correspondentes locais do jornal AND estiveram presentes para fazer a propaganda da luta combativa das massas.

Ativistas conversam com as massas e entregam boletins do MFP. Foto: AND.

Durante a concentração, deputados e vereadores, alpinistas do sofrimento do povo, chegaram em seus grandes carros, tiraram algumas fotos e, antes mesmo de o ato caminhar, foram embora aos burburinhos de repúdio das massas.

Os poucos representantes carreiristas do oportunismo que permaneceram, em menos de 20 minutos de caminhada até que o bloco se aproximasse da marginal, tentaram implodir a organização do ato. Alegaram que seria impossível seguir pela Marginal, já que “a polícia não estava lá para garantir a proteção dos manifestantes” e que “a constituição não autoriza o trancamento de via”. Segundo participantes do ato, essas afirmações, estranhas às massas, não intimidaram a mobilização, senão o oposto. Entendendo que a polícia não representa a proteção do povo, mobilizaram-se com combatividade até o trancamento da avenida.

Instantes após, a Polícia Militar (PM) surgiu e, em vez de garantir a segurança do povo, tenta por várias vezes bloquear a passagem dos manifestantes. Até mesmo jornalistas do monopólio de imprensa, a fim de garantir que os carreiristas fossem entrevistados, tentaram bloquear a marcha do povo com seus aparelhos, mas foram “engolidos” pelo bloco.

Segundo os movimentos independentes e combativos presentes na manifestação, nem a chuva intensa, nem a vontade dos imobilistas, da polícia e da grande imprensa impediram que o ato percorresse com a altivez das mulheres, mães, crianças e ativistas, que o tempo todo denunciavam, nas palavras de ordem, os assassinos de mulheres, a PM e o velho estado, entoando: “Quantas mais têm que morrer pra esse povo revidar?”.

Desta forma, o ato continuou até uma igreja próxima da favela da Marcone. Em fala, representantes do MFP reforçaram a força que as massas têm quando não temem a luta, o que ficou muito bem representado neste dia. Familiares e amigos de mulheres vítimas de feminicídio finalizaram o ato pedindo uma oração coletiva.

Crianças carregam cartazes em memória de companheiras vítimas de feminicídio e ativistas revolucionárias. Foto: AND.

Semanas antes do ato, moradores e coletivos do bairro realizaram uma massiva panfletagem para informar o máximo de mulheres das comunidades do Parque Novo Mundo sobre a realização dele. Nesta ocasião, receberam incontáveis relatos de condições degradantes das mulheres do povo. Uma moradora pediu que avisasse os detalhes sobre o ato pelo celular de sua mãe, porque seu marido havia quebrado seu celular e dito que “caso ela comprasse outro, mataria ela”. 

Outras duas moradoras relataram a situação que passaram ao irem a uma conhecida base da PM no bairro para denunciar a agressão que sofreram de seus maridos. Uma delas, ao concluir o relato e pedir ajuda, foi abordada com a seguinte afirmação: “Também, com essa cara de ‘favelada’, é claro que vai ser agredida”. Outra delas foi informada de que, já que ela já tinha buscado a delegacia da mulher e não tinha adiantado, deveria “falar com os irmãos”. Ou seja, a própria polícia recomendou que ela resolvesse a situação recorrendo aos grupos paramilitares, deixando claro seu desinteresse completo, ou ao menos sua incompetência, em resolver a situação.

Uma senhora, também moradora de uma favela da região, indagou jovens que estavam divulgando o ato. Ela queria saber o que na prática poderia acontecer com ela caso ela revidasse às constantes agressões físicas e psicológicas que sofria de seu marido. Outra senhora, voltando da igreja com a bíblia em mãos, durante conversas sobre a situação política com ativistas, destacou que o que tem acontecido no Irã e na Venezuela não são situações muito diferentes das do Brasil, e que o que precisamos é de uma verdadeira revolução, e que “as mulheres peguem em armas para se defender”. Estas foram algumas das várias mulheres que se posicionaram em favor da autodefesa feminina e de uma mudança radical no sistema político vigente, manifestando que gostariam que esta luta se desse de maneira combativa e organizada.

Já no dia 8, horas antes do ato, os moradores organizaram um almoço coletivo, com marmitas doadas por uma cozinha comunitária da região. O momento foi muito importante para as mulheres do bairro conversarem sobre os recentes casos de feminicídio e a importância de serem denunciados. Também foi organizada a confecção de cartazes e faixas junto às crianças da comunidade. 

Massas levantam o jornal AND em manifestação contra a violência contra a mulher. Foto: AND.

Essa mobilização popular se destaca, principalmente, a partir do ano passado, e vem se tensionando ainda mais nos últimos meses. No dia 29 de novembro de 2025, em denúncia ao aberrante caso de violência contra a jovem Taynara, que foi atropelada e arrastada pela Marginal, uma manifestação com moradores foi realizada no mesmo local do ato deste ano. Na ocasião, oportunistas representando diversas siglas partidárias, principalmente do Partido dos Trabalhadores (PT), tentaram usar a situação como palanque político, mas foram repudiados com vaias e palavras de ordem contra a farsa eleitoral, desmoralizando-os completamente. Taynara foi atendida no Hospital José Storopoli (o “vermelhinho”), e dias após a manifestação, na véspera de Natal, a jovem não resiste aos ferimentos e morre.  

No dia 23 de fevereiro deste ano, Priscila Versão, de 22 anos, foi agredida até a morte pelo seu marido, Deivit Bezerra, de 35 anos, voltando de uma festa no Jardim Brasil. Priscila era amiga de Taynara e deixou 3 filhos.

Dias após seu assassinato, o “Ministério da Mulher” organizou um “ato memorial pela vida das mulheres” para o dia 1o de março, na Marginal Tietê, para o qual as moradoras da comunidade não foram convocadas diretamente. O ato contou com a participação da Ministra da Mulher (Marcia Leite), do Meio Ambiente (Marina Silva) e dos Povos Indígenas (Sônia Guajajara).

Durante a panfletagem para o ato do dia 08/03, diversas moradoras, inclusive lideranças locais, relataram que não foram sequer informadas sobre o evento anteriormente realizado. O mural, que mobilizou mais de 40 artistas de São Paulo, foi muito enaltecido pelas moradoras da região, ao passo que diversas delas questionaram a legitimidade das ministras e demais políticos presentes, que pouco ou nada fazem de efetivo para as mulheres do povo.

A revolta popular no Novo Mundo acerca do fim da violência contra a mulher torna nítido que assassinatos como os de Taynara e Priscila não são casos isolados, mas sistêmicos: “Eles não podem ser resolvidos com migalhas do velho Estado, que é o real causador da subjugação feminina a esta condição. Em 20 anos da Lei Maria da Penha, os casos de feminicídio cresceram ano após ano, atingindo 1.568 ocorrências em 2025”, afirmou uma ativista.

Ativistas representantes do MFP, em diversas falas durante o ato, ressaltaram que, enquanto as condições que geram essa violência continuarem existindo, ou seja, esse sistema de opressão e exploração, outras mulheres serão vitimadas todos os dias, e que é necessária uma grande luta pela emancipação feminina como parte da luta proletária pela emancipação de toda a humanidade.

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