Ryan Mendes, capitão da Federação Cabo-verdiana de Futebol (FCF), agrediu e estuprou uma intérprete brasileira durante etapa preparatória da Copa da Fifa1. Apesar das várias provas que a vítima conseguiu juntar, mesmo o crime odioso tendo ocorrido durante um dos maiores eventos esportivos do mundo, nada disso foi suficiente para que a Fifa, o Estados Unidos, um dos países que sedia esta Copa, ou Cabo Verde, aplicassem nenhuma, por mínima que seja, punição ao estuprador. Novidade alguma: jogador profissional de futebol estuprar impunemente! É mais uma prova de que não interessa ao imperialismo e suas instituições falidas combater a violência contra a mulher e demais formas de opressão sexual, posto que às classes dominantes reacionárias interessa manter a mulher subjugada, por mais que cacarejem o contrário em seus monopólios de comunicação, com discurso feminista pequeno-burguês e sua suposta “liberdade individual da mulher” dentro do capitalismo. Urge que os movimentos e pessoas verdadeiramente democráticas e revolucionárias lancem com mais ímpeto a consigna revolucionária: a emancipação das mulheres só pode ser obra da revolução proletária mundial!

Ryan Mendes agrediu e estuprou a intérprete da seleção de Cabo Verde no dia 27 de março de 2026 durante amistosos da Copa, ocorridos na Nova Zelândia. A Federação Neozelandesa, organizadora desta etapa preparatória do torneio, contratou uma brasileira que vive naquele país há 9 anos. Ela estava de plantão no hotel onde a seleção de Cabo Verde se hospedava, à disposição desta delegação; à noite, foi chamada em seu quarto e abriu a porta pensando ser alguma urgência de trabalho. Mas era o jogador, que invadiu o quarto, agrediu a brasileira com esganaduras, socos, mordidas e a estuprou.
Ainda no hotel, a brasileira fotografou os hematomas; no dia seguinte, denunciou o crime à única mulher da delegação de Cabo Verde. Quando voltou pra casa, foi até uma clínica especializada em vítimas de violência sexual, que atestou lesões nas mamas, pescoço, lábios, couro cabeludo, nádegas e vulva, e afirmou que a vítima passou perto de morrer, devido ao estrangulamento.
Ela e o esposo registraram ocorrência contra Ryan Mendes numa delegacia local e denunciaram oficialmente o crime à Fifa. Ainda em abril, representantes da Federação de Cabo Verde contataram a brasileira por telefone, numa ligação que durou 45 minutos. Depois, a vítima enviou mensagens a três representantes da seleção africana, que afirmaram que a FCF não tinha nenhuma relação com o ocorrido, que era um problema pessoal do jogador. Ante o silêncio cúmplice e a inoperância das instituições oficiais de futebol, transcorrido mais de um mês após o crime execrável, a vítima e seu esposo enviaram notificações extrajudiciais à Federação de Cabo Verde e à Fifa, com relato, as provas e um pedido para que o jogador fosse impedido de participar da Copa.
“Essas situações acontecem muito no mundo do futebol”
O silêncio destas entidades só foi quebrado a partir de uma matéria denunciando o crime, publicada no dia 27 de junho no jornal O Globo. Só então a Fifa se pronunciou oficialmente, três meses após o estupro. Dois dias depois, Mario Semedo, presidente da FCF, deu uma declaração a uma emissora de TV de Cabo Verde. Mentiu que nunca foram comunicados oficialmente, invocou a presunção de inocência do jogador, pediu serenidade e vomitou impropérios: “Essas situações acontecem muito no mundo do futebol. Os jogadores estão concentrados e determinados.” A seleção de Cabo Verde sequer retirou o posto de capitão de Ryan Mendes! A FCF era a “queridinha da Copa” e não limitava o tempo da imprensa na cobertura de todas suas atividades, mas depois da repercussão mundial do crime, reduziu a exposição apenas ao que a Fifa obriga por contrato e censurou perguntas sobre o estupro em coletiva de imprensa no dia 02 de julho. Um colega ainda defendeu o estuprador numa entrevista em vídeo: “Ele falou com o grupo, nada que aparece no noticiário é verdade. É a única coisa que eu sei, é a única coisa que quero falar.” A FCF foi recebida com festa quando voltou pra casa. Afinal, a inédita campanha do time africano não poderia ser ofuscada por mais uma violência sexual contra uma mulher!

Outra situação que “acontece muito no mundo do futebol” é duvidar da palavra das vítimas, acusar de usurpadoras e mentirosas as mulheres que denunciam violências cometidas por jogadores, posto que é quase impossível gravar esses crimes, na maioria das vezes ocorridos em locais privados. Segundo esse discurso, também os craques são alvo fácil do “golpe da barriga”. Coitadinhos! Os homens barbados não sabem que transar sem camisinha pode acabar numa gravidez! Os esportistas têm ainda o “direito” de embebedar e drogar mulheres para reduzir sua capacidade de resistir ao assédio, ou talvez até de bater, estuprar e assassinar a mulher que termina engravidando, por que não? Afinal, eles dão duro em campo para levar alegria ao povo. São casos como os de Cuca, Bruno, Robinho e Daniel Alves.
Pensamentos absurdos como esse são mato em mesas de bar, ônibus e trens, nas caixas de comentários das matérias jornalísticas e nas redes sociais. E eles não brotam do nada. A manutenção da propriedade privada dos meios de produção e sua decorrente opressão feminina, sob a qual se ergue uma superestrutura que profana uma “natureza feminina deficitária”, objetifica e mercantiliza o corpo feminino, vulgariza as relações amorosas e as relações humanas de forma geral; tudo isso compõe um caldo de cultura que justifica as mais ignominiosas humilhações, agressões, estupros e assassinatos de mulheres mundo afora. E isso só cresce na medida em que se aprofunda a crise de decomposição desse sistema imperialista baseado na exploração do homem pelo homem e na medida em que todas as mazelas sociais e humanas se acentuam, como produto direto de falência completa. Justificam ainda mais quando vêm de figuras do futebol, esporte que tanto influencia culturalmente povos e nações, já que estamos falando do esporte mais popular do mundo.
Luta de classes no futebol
Historicamente, as classes dominantes reacionárias sempre lançaram mão da arte, cultura e esporte como potentes meios de opressão ideológica e política para escamotear a exploração do homem pelo homem, desmoralizar os dirigentes mais conscientes e combativos do povo, infundir pacifismo, medo, pessimismo e capitulação.
Nesta Copa de 2026, a desfaçatez do governo Trump e da Fifa foi tamanha que evidencia ao mundo a crise de decomposição sem precedentes do imperialismo. Os jogadores e comissão técnica da seleção do Irã foram proibidos pelo governo estadunidense de dormirem no Estados Unidos, o que restringiu muito o tempo de descanso e concentração do time mais honrado e brioso desta Copa. O primeiro árbitro de futebol da África convocado para a Copa da Fifa, Omar Artan, da Somália, foi impedido de entrar no Estados Unidos, mesmo ele tendo visto válido, apenas por pertencer a um povo que o celerado Trump sempre declarou ser “lixo”. A seleção de Senegal foi submetida a uma revista vexatória ainda na pista do aeroporto. A seleção do Haiti, que Trump chamou de “país de merda”, enfrentou muita dificuldade para entrar no Estados Unidos. O mesmo aconteceu com Aymen Hussein, principal nome da seleção iraquiana, que foi detido e interrogado por 7 horas. Karine Alves, uma jornalista brasileira negra, foi vítima de racismo por parte de agentes de imigração do EUA, que inspecionaram seu cabelo de forma ríspida.
Mas os imperialistas não têm o mesmo rigor para tratar seus mandatários e acusados de crimes sexuais e racistas. Além de Ryan Mendes, participar da Copa da Fifa outros jogadores processados por crimes sexuais, como Hakimi de Marrocos, Thomas Partey de Gana e Kaishu Sano do Japão.
O árbitro de vídeo australiano, Shaun Evans, antes do início da partida entre Alemanha e Curaçao, posou para uma foto protocolar fazendo um gesto de supremacistas brancos; a Fifa não o puniu porque não viu nada demais e o fascista ainda zombou da nossa cara dizendo que era um “tique nervoso”. A Fifa inventou uma honraria apenas para homenagear Donald Trump por seus “esforços pela paz”; pouco depois, ele iniciou novas agressões imperialistas contra a heroica nação iraniana. A Fifa ainda anulou a justa expulsão de um jogador estadunidense, a pedido de Trump que, aliás, nunca é demais lembrar, foi acusado mais de uma vez de crimes de estupro e exploração sexual, fiel parceiro do asqueroso Epstein em sua ilha do horror para as mulheres e do paraíso para os bilionários misóginos, local de exploração sexual abjeta de mulheres, inclusive meninas menores de idade.

Cúmplice do genocídio que Israel comete em Gaza, a Fifa não impediu este país invasor de participar da Copa, ainda que eles tenham assassinado em seus bombardeios genocidas mais de 400 jogadores de futebol palestinos.
Mas, proporcional à decomposição do imperialismo, avança a resistência dos povos e nações oprimidas do mundo. Nem todo aparato econômico, político, militar, midiático das instituições reacionárias nesta, que foi a maior e mais lucrativa Copa da história, conseguiu barrar as manifestações de resistência, que expressam os anseios mais profundos das massas. Começando pelo mais simples: durante a coletiva de imprensa, onde a seleção cabo-verdiana só permitiu perguntas sobre futebol, três jornalistas ignoraram a censura e perguntaram sobre o crime, única ação contrária ao estuprador até agora nesta Copa.
Torcedores mexicanos de Tijuana, cidade onde a seleção iraniana ficou hospedada, se despediram com uma chuva de aplausos. Também no Estados Unidos, em todas cidades por onde passaram os jogadores do Irã foram recebidos com muita hospitalidade, segundo afirma a própria seleção iraniana.

Os jogadores da seleção do Egito entraram em campo com a bandeira da Palestina estampada no uniforme. Na entrevista coletiva após vitória contra Austrália nos pênaltis, Hossam Hassan, técnico do Egito, disse: “Esta vitória é para o povo egípcio, para o povo palestino e para todo o povo árabe.” Sobre Suleiman Al-Obeid, conhecido como o Pelé palestino, que foi assassinado num bombardeio israelense na Faixa de Gaza, Hassan desafiou os imperialistas: “Podem nos dizer como ele morreu, onde e por quê?” E ainda: “Se alguém nunca sentiu o sofrimento do povo palestino é porque lhe falta humanidade.” Quando o Egito foi eliminado da Copa, em jogo contra a Argentina, o treinador desfraldou a bandeira da Palestina e protestou contra torcedores argentinos que exibiam a bandeira sionista. Hassan e a seleção egípcia foram muito saudados pelo seu povo, que os recebeu com várias bandeiras Palestinas.

Além do técnico do Egito, jogadores de Marrocos e da Espanha e torcedores de várias seleções também levantaram bandeiras Palestinas em vários jogos desta Copa, desde as fases iniciais. No jogo entre Bósnia e Canadá, ocorrido em Toronto, torcedores e ativistas dos dois países se uniram em protestos com marcha, cânticos, cartazes e camisetas com as consignas: “Judeus por uma Palestina livre”, “Expulsem Israel da Fifa” e “Liberdade ao médico Palestino Hussam Abu Safiya” sequestrado pelo Exército invasor, em Gaza, em 2024.

O heroico povo palestino em Gaza assistiu a Copa em meio aos escombros e retribuiu o apoio com pinturas e cartazes. O palestino Mohammed al-Wahidi, trabalhador e ativista que ajudou a instalar telões para exibição dos jogos foi assassinado em um bombardeio do exército invasor de Israel, no último dia 7 de julho pouco antes do início da partida entre Egito e Argentina.
No México, o povo confrontou a polícia em vários protestos combativos protagonizado por professores, em greve para exigir aumentos salariais e direitos previdenciários, e por familiares dos mais de 133 mil desaparecidos, que procuram seus entes queridos sem ajuda do velho Estado. Os levantes foram proporcionais aos gastos públicos e privados para realização da Copa, que atingiram 8,2 bilhões de dólares, e não foram suficientes para envergonhar Claudia Sheinbaum, a primeira mulher a presidir o México.


O povo e nação do Irã estão derrotando a guerra imperialista com sua justa guerra de resistência nacional no campo de batalha e também na Copa, como evidenciam as cartas deixadas pela seleção iraniana “Nós viemos do IRÃ. Viemos de uma terra que, há milhares de anos, coloca a honra acima da vitória. Para nós, o futebol não é apenas uma competição por resultados. É um teste de caráter. Talvez seja possível conquistar pontos de muitas maneiras, mas o respeito não. Talvez uma equipe possa avançar de fase, mas somente por meio da justiça e da honra alguém pode permanecer de cabeça erguida diante da história. O fair play1 não é apenas uma linha nas regras do futebol; é a alma do jogo. IRÃ, sempre de cabeça erguida.”.

Aos povos e nações oprimidas do mundo todo cabe seguirmos firmemente o caminho revolucionário em cada país, que destruirá este velho mundo e construirá o novo mundo, onde o futebol será liberto das garras das classes opressoras e nenhuma mulher mais será agredida e subjugada por sua condição de classe oprimida e explorada.

1 FIFA (Federation of International Football Associations) – Federação das Associações de Futebol Internacional.
1 Expressão oriunda de termo em inglês que significa jogo limpo, respeito às regras do jogo.






