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O papel das mulheres na Batalha Feroz de Barro Branco, em Pernambuco (Atualizado)

Camponesas e estudantes desempenham papel fundamental na luta pela terra de posseiras e posseiros do Engenho Barro Branco, no município de Jaqueira, Pernambuco.

No dia 28 de setembro, os posseiros de Barro Branco, Jaqueira-PE, enfrentaram a invasão de 50 pistoleiros armados acompanhados de 3 retroescavadeiras que adentraram as terras dos camponeses na tentativa de destruir suas moradias e a sede da Associação do Engenho Barro Branco e dar continuidade ao processo de grilagem iniciado há 9 anos pelo latifundiário ladrão de terras Guilherme Maranhão. A audaz resistência dos posseiros, apoiados por estudantes e camponeses de áreas vizinhas, forçaram o recuo dos criminosos, que se afugentaram pelos fundos, envergonhados com sua excruciante derrota diante da ferocidade dos camponeses.

A força da resistência camponesa se duplica com a participação das mulheres do povo, integradas na linha de frente no confronto e na organização da luta campesina, liderando comissões de trabalho e exercendo com primor as árduas tarefas pela derrota do latifúndio. A expressão integral da defesa do justo direito à terra a quem nela vive e trabalha, que é apresentada cotidianamente pelas camponesas de Barro Branco, revela a atuação imprescindível das mulheres do campo para o avanço da Revolução Agrária no nosso país.

[Imagem 1: Camponeses e estudantes na Batalha Feroz de Barro Branco.]

O Engenho Barro Branco

No município de Jaqueira, Pernambuco, funcionava até o fim dos anos de 1990 a Usina Frei Caneca, que retomava a época escravagista, de propriedade da família Jardim. Após sua falência, a oligarquia agrária da família Jardim já acumulava milhões de reais em dívida com o Estado de Pernambuco, a União, fornecedores e as centenas de trabalhadores da usina. Estes últimos viviam em sistema de servidão durante seu funcionamento. As dívidas milionárias jamais foram pagas e as famílias que moravam na área permaneceram nas terras, tornando-se posseiras de Barro Branco. Em 2019, a família Jardim arrendou mais de 5 mil hectares de terra à empresa Agropecuária Mata Sul S/A, pertencente ao latifundiário Guilherme Maranhão, sendo essas terras já ocupadas pelas centenas de famílias posseiras. Na tentativa de expulsá-las das terras para expandir a criação de gado para exportação, Maranhão realiza diversos ataques contra os camponeses. O latifundiário frequentemente envia pistoleiros para ameaçá-los de morte, manda despejar veneno nas fontes de água, que abastecem não apenas Barro Branco, mas todo o município de Jaqueira, solta o gado para que seus estrumes contaminem essas águas, destrói as plantações dos posseiros, repetidas vezes tenta, inclusive ao arrepio da lei, despejar as famílias, entre tantas outras covardias cometidas contra os camponeses.

[Imagem 2: Camponeses denunciam os crimes do latifúndio.]

Vivendo nessas condições de todo tipo de perseguição há mais de uma década, os posseiros passaram a se organizar para garantir sua justa permanência no chão onde vivem há gerações e, ao se organizarem sob a direção da LCP (Liga dos Camponeses Pobres), vêm erguendo cada vez mais alta a gloriosa bandeira da Revolução Agrária pela conquista de toda a terra e pelo fim do latifúndio, usurpador das terras do povo. Os camponeses utilizam numerosas táticas de luta, organizam atos, panfletagens, assembleias populares, cobram dos órgãos responsáveis o devido registro legal da posse de suas terras e difundem ao nosso povo o aguerrido espírito de resistência, e assim se sobressaem às limitações advindas das perseguições da polícia local corrupta e dos grupos paramilitares do latifúndio, que tentam criminalizar sua luta revolucionária.

A valorosa atuação das mulheres camponesas na defesa das terras de Barro Branco

A luta dos posseiros de Barro Branco também é das camponesas destas terras e se faz mais do que necessária a organização das mulheres do campo para que se alcem nas tarefas pela Revolução Agrária e pelos movimentos revolucionários de todo o povo. O MFP assume esse dever logo após a chegada da LCP no engenho como um movimento aliado e, desde então, realiza importantes reuniões com as posseiras e age na organização das tarefas a fim de impulsionar ainda mais o desenvolvimento dessas camponesas.

[Imagem 3 e 4: Plenária do MFP com mulheres camponesas.]

É habitual que as mulheres camponesas sejam as mais presentes na região ao longo do dia, formando um cenário oportuno para que, historicamente, estas tenham se lançado à frente no enfrentamento da pistolagem e da indecente Polícia local para a defesa resoluta das terras de Barro Branco. Por conta disso, é evidente que as filhas destas terras já encarnam a fúria revolucionária da mulher e sempre se atiraram no combate aguerrido ao latifúndio.

Clara*, nascida e criada nestas terras, relatou sobre os ataques frequentes que sofre, como quando sua casa foi invadida arbitrariamente pela polícia a mando de latifúndio, que a hostilizou e quebrou alguns de seus pertences. Em todos esses momentos de conflito, a camponesa efetuou audaz defesa de sua moradia, de sua família e de sua dignidade. A notória combatividade e perseverança de Clara se manifesta em todas as suas irmãs de luta, como afirma uma companheira em reunião do MFP: “nenhuma de nós deve desistir da nossa luta, somos tipo uma corrente, uma passando força para a outra”.
As mulheres estiveram à frente no levantamento da bandeira palestina ao compreenderem o internacionalismo da luta de classes e as semelhanças entre as heroicas resistências dos povos de diferentes locais sob a violência do imperialismo. Como afirma a Elizabete — destacada liderança camponesa, que sempre se põe a impulsionar a luta de todo o povo de Barro Branco e ainda mais de suas companheiras — ao relembrar o processo para alcançar esse grande feito: “Antes de levantar, primeiramente nós aprendemos como era o regimento e como era que se levantava, tanto a bandeira da Liga como a bandeira da Palestina. Então foi feito assembleia, teve muita votação, mais de 130 pessoas levantaram a mão para o apoio das bandeiras. Isso aí eu digo que foi um firmamento ao qual a história de Barro Branco mudou, a população junto com a Liga, e hoje não é mais aquele Barro Branco atrasado que era antes”.
As mulheres estiveram à frente no levantamento da bandeira palestina ao compreenderem o
internacionalismo da luta de classes e as semelhanças entre as heroicas resistências dos povos de
diferentes locais sob a violência do imperialismo. Como afirma a Elizabete — destacada liderança
camponesa, que sempre se põe a impulsionar a luta de todo o povo de Barro Branco e ainda mais desuas companheiras — ao relembrar o processo para alcançar esse grande feito: “Antes de levantar,
primeiramente nós aprendemos como era o regimento e como era que se levantava, tanto a bandeira
da Liga como a bandeira da Palestina. Então foi feito assembleia, teve muita votação, mais de 130
pessoas levantaram a mão para o apoio das bandeiras. Isso aí eu digo que foi um firmamento ao
qual a história de Barro Branco mudou, a população junto com a Liga, e hoje não é mais aquele
Barro Branco atrasado que era antes”.

[Imagem 5: Mulheres levantam alto a bandeira da Palestina.]

A Batalha Feroz de Barro Branco

Em 28 de setembro, 50 pistoleiros armados em 14 caminhonetes, acompanhados de 3 retroescavadeiras, invadiram as terras dos posseiros numa tentativa clara de despejar as famílias ilegalmente, e contando com o apoio de policiais militares de diferentes cidades da região. Os pistoleiros, contratados pela Agropecuária Mata Sul S/A, destruíram dois sítios dos camponeses e instalaram uma cerca elétrica em uma das terras.

Os posseiros prepararam sua autodefesa de prontidão, resistindo firmemente com foices, enxadas, paus e pedras contra os covardes capangas do latifúndio. Foram improvisadas barricadas para encurralar os pistoleiros e impedir o avanço desse ataque. A chegada de estudantes, ativistas e camponeses de terras vizinhas, que estavam em Missão de Solidariedade em apoio aos posseiros, inteirou as fileiras da resistência contra os mercenários, levantando as bandeiras vermelhas e ecoando canções e palavras de ordem revolucionárias a atemorizar os inimigos do povo.

[Imagem 6: Faixa “O risco que corre o pau corre o machado” estendida durante a Batalha Feroz de
Barro Branco.]

A fé revolucionária das companheiras as empurrou à linha de frente da batalha. Dona Sandra não
pensou duas vezes antes de se colocar nas trincheiras da luta pela terra e misturar-se à multidão de
camponeses e estudantes. Ao narrar sobre sua ida ao campo de batalha, Sandra disse: “Eu desci
sozinha com a foice na mão, desci sozinha e Deus. Aí meu véi disse assim ‘tu vai por aí sozinha
nesse monte de gente para cima e para baixo? Pelo amor de Deus, volta!’ E eu digo ‘vou não, vou
voltar nada’, botei a foice nas costas e parti”, e completou sobre o momento após se unir com seus
companheiros e se deparar com a polícia acovardada: “Eles [policiais militares] correndo para
dentro das bananas e detrás da igreja, um mandou eu guardar a foice e entrar, eu disse a ele ‘você tá
pensando que eu sou vocês, é? Que estão se escondendo com medo de um tiro. Eu vou ficar é no
meio mais os meninos alí, mais o povo, que se eu morrer, morro bem satisfeita. Vou derrubar meu
sangue na luta!’”

Após a batalha, a perseguição da polícia persistiu, com o envio de drones de vigilância, a intimidar os moradores durante as rondas e até com o acampamento de policiais militares na Escola Municipal dentro da área do engenho, utilizando dessa aproximação para frequentemente intimidar crianças e assediar suas famílias. Os camponeses rechaçam veementemente a presença da polícia, destacando-se a posição das mães e avós da comunidade que constantemente discutem e denunciam a covardia praticada contra os filhos do povo que, inclusive, ansiavam pela noite do pijama organizada pela professora dessa escola, que não veio a acontecer por conta dos policias dormirem nas salas de aula.

[Imagem 7: Ferimento causado pelo tiro no ombro da camponesa.]

A relação entre os estudantes e camponeses se dá de maneira estreita desde muito antes da batalha.
A juventude mais combativa de Recife compreende seu dever de classe nessa união do povo pela
revolução e não apenas afirma seu apoio à luta dos posseiros de Barro Branco, mas se dispõe
ativamente para o cumprimento das tarefas necessárias para o seu avanço. As camponesas relatam
sorridentes sobre esse vínculo, a exemplo de Sandra quando diz que “a primeira vez que vocês
[estudantes] vieram pra aqui, já trouxeram aquele ar, aquela força, foi dando coragem pra todo
mundo, a gente se apegou a vocês de um jeito que agora não tem quem nos tire daqui não”.
Estabelecida sobre essa união, a estudante de pedagogia, Ana Cecília, se funde às fileiras da batalha
feroz sem temer. Ao ser alvejada no pé direito, Cecília foi encaminhada ao hospital para receber os
devidos cuidados médicos e, quando questionada sobre sua volta à Recife, onde mora atualmente, a
estudante fez questão de voltar a Barro Branco e permanecer até o fim da missão com seus colegas
e camponeses. Esse ato heroico de Cecília inspira toda a juventude combatente a se dedicar a
serviço do povo de todo o coração e manter-se firme nas trincheiras da luta de classe mesmo nos
caminhos mais tortuosos, pois nossa vitória contra o inimigo é certa, e a unidade do povo, seu maior
escudo.

[Imagem 8: Ferimento causado pelo tiro no pé da estudante.]

Companheira Elizabete expôs sua leitura acertada sobre o confronto do dia 28: “Foi uma grande
batalha, porque nós vencemos! Com a organização que a gente tinha, com os companheiros que
estavam alí somente de facão, de foice, de pau, nós vencemos! Eles com arma pesada, mais de
cinquenta homens, tudo armado, não conseguiram voltar pelo lugar por onde entraram, voltaram por
outro lugar, saíram tudo com medo”. Também percebeu os ganhos desta vitória: “Aquela batalha
que a gente enfrentou nos ajudou a ficar mais firmes, mais fortes, mais preparados, a não abaixar
nossa cabeça! Não somente eu, como todas as minhas companheiras, sempre que estamos juntas, a
gente comenta ‘vamos seguir em frente, vamos se juntar, vamos ser mais unidas!’”
Após a batalha, a perseguição da polícia persistiu, com o envio de drones de vigilância, a intimidar
os moradores durante as rondas e até com o acampamento de policiais militares na Escola
Municipal dentro da área do engenho, utilizando dessa aproximação para frequentemente intimidar
crianças e assediar suas famílias. Os camponeses rechaçam veementemente a presença da polícia,
destacando-se a posição das mães e avós da comunidade que constantemente discutem e denunciam
a covardia praticada contra os filhos do povo que, inclusive, ansiavam a noite do pijama organizada
pela professora dessa escola que não veio a acontecer por conta dos policias dormirem nas salas de
aula.
Também foram flagrados os policiais andando pela escola com roupas íntimas. Sobre esse episódio,
companheira Rosa, indignada com a frustração causada em seus filhos, reclamou: “As crianças não podem passar a noite de pijama e os policiais podem passar o dia de cueca?!” A luta contra esse assédio ordenado se alonga a variadas situações, o que esclareceu às poucas pessoas que ainda
acreditavam na proteção da polícia que esta é um aparelho da reação e deve ser derrotada
inseparavelmente ao latifúndio, assim demonstrado nas faixas pintadas pelas camponesas e
dispostas pela área com consignas como “Polícia é para ladrão, fora batalhão!”
A Revolução Agrária fincou profundamente suas raízes em Barro Branco e provou-se como a
verdadeira saída para os problemas no seio do povo. O futuro luminoso da infalível vitória das
classes populares é percebido e irradiado no efervescente espírito das camponesas e estudantes,
irmãs envoltas por esta luta. Com toda a fé que possui, Elizabete encerrou a entrevista descrevendo
o certo destino dos posseiros de Barro Branco: “Eu enxergo meu futuro, não somente o meu, mas das minhas companheiras, com a minha terra, produzindo, colhendo e vivendo dela. Todos nós aqui
com as nossas terras, das quais nós temos sede, temos ansiedade de ter.” Esse é o destino de todos
os povos oprimidos do campo que, ao se organizar e utilizar da violência revolucionária,
conquistarão todas as terras para que sirvam a quem nelas vivem e trabalham!

*nomes fictícios para a proteção da identidade das posseiras

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