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Organizando Mulheres Trabalhadoras (Clara Zetkin, 1922) – Parte I (atualizado)

Publicaremos por partes a tradução do texto de Clara Zetkin A questão feminina e o reformismo. O material corresponde a parte da obra Zur Geschichte der proletarischen Frauenbewegung Deutschlands (Sobre a história do movimento das mulheres proletárias), Moscou, 1928. A tradução foi realizada por nós a partir da edição de 1976 da Editorial Anagrama, em língua espanhola.

O documento é de fundamental importância para a análise do surgimento da Questão Feminina, do desenvolvimento do movimento de mulheres no século XIX e início do século XX. A grande camarada Clara Zetkin, como uma firme e convicta marxista-leninista traça uma análise do desenvolvimento desse movimento baseando-se no materialismo histórico-dialético, com a análise de classe marxista.

Nessa parte, confrontando-se diretamente com as concepções burguesas do feminismo, revela como desde seu surgimento o movimento de mulheres esteve diretamente ligado ao desenvolvimento da luta de classes. Ao mesmo tempo que exalta o papel e a história de mulheres revolucionárias destacadas na França, Alemanha, EUA e Rússia, no processo da revolução democrática burguesa, demonstra os limites históricos da posição de classe da burguesia. No exemplo da França fica claro como a burguesia ao estabelecer seu poder político volta suas armas contra o proletariado, assim como se volta contra a luta pela emancipação da mulher.

Clara Zetkin parte das bases materiais que impulsionaram a luta pela emancipação das mulheres, no que chama de pré-história do movimento feminino e demonstra como desde os primórdios do movimento organizado de mulheres há uma clara distinção baseada no interesse de classe, os interesses e reivindicações das mulheres burguesas eram diferentes dos interesses e reivindicações das mulheres proletárias, comprovando como desde o seu início não houve uma única linha e posição no movimento de mulheres, mas duas, opostas e antagônicas.

Ao traçar um paralelo entre a participação das mulheres na luta revolucionária na França e Alemanha, demonstra como a agudização da luta de classe entre burguesia e proletariado deslindou ainda mais os dois caminhos do movimento de mulheres, o reformista que sustentava os interesses da burguesia, que não poderia destruir as bases econômicas da opressão feminina, e o revolucionário proletário, que vinculava a emancipação das mulheres necessariamente a destruição da sociedade de classes, rumo ao luminoso comunismo, demonstrando que a sorte do movimento feminino está irmanada com a sorte do movimento operário.

Organizando Mulheres Trabalhadoras

O Secretariado Internacional das Mulheres é uma filial do Executivo da Internacional Comunista. Conduz sua atividade não somente em uma cooperação constante com o Executivo, mas sob sua liderança
direta. O que, em regra, designamos como o Movimento das Mulheres Comunistas não é um movimento independente de mulheres. Ele existe como propaganda comunista sistemática entre estas. Isso tem um duplo propósito: Primeiro, incorporar dentro das seções nacionais da Internacional Comunista aquelas mulheres que já estão tomadas pelo ideal comunista, tornando-as cooperadoras conscientes na atividade dessas sessões. Segundo, despertar para o ideal comunista as mulheres indiferentes e atraí-las para as lutas do proletariado. As massas das mulheres trabalhadoras devem ser mobilizadas para essas lutas. Não há trabalho no Partido, não há luta de movimento em nenhum país em que nós, mulheres, não consideramos como nosso primeiro dever participar. Além disso, desejamos ocupar nosso lugar nos Partidos Comunistas e na Internacional em que o trabalho é mais árduo e as balas voam mais densas, sem desviar do trabalho mais servil e modesto do dia a dia.

Uma coisa se tornou evidente: necessitamos de órgãos especiais para levar adiante o trabalho Comunista de organização e educação entre as mulheres e torná-las parte da vida do Partido. Agitação
Comunista entre as mulheres não é somente tarefa delas, é tarefa de todo o Partido Comunista de cada país, da Internacional Comunista. Para cumprir nosso propósito é necessário criar órgãos partidários, Secretarias das Mulheres, Departamento das Mulheres, ou como quer que possamos chamá-los, para continuar esse trabalho.

Óbvio que não negamos a possibilidade de que alguma personalidade forte, homem ou mulher, possa fazer o mesmo trabalho em uma organização local ou distrital. No entanto, por mais que admitamos tais relações individuais no Partido, devemos nos perguntar como maiores seriam os benefícios se ao invés do trabalho de um único indivíduo, tivéssemos a cooperação de muitas forças. A ação conjunta de muitos em prol do objetivo comum deve ser nosso slogan no Partido, na Internacional, e em nosso trabalho para com as mulheres.

Por conveniência, da divisão prática do trabalho, as mulheres, em regra, são mais bem qualificadas para participar de órgãos especiais para o trabalho Comunista entre elas. Não podemos nos desviar do fato que a grande massa de mulheres vive e trabalha hoje sob condições específicas. Logo, no geral, as mulheres costumam encontrar o melhor e mais rápido método de abordar a mulher trabalhadora para começar a propaganda Comunista. Assim como nós, mulheres Comunistas, consideramos como nosso direito e dever participar de todas as atividades no Partido – desde o mais modesto trabalho de distribuição de panfletos até à derradeira, tremenda e decisiva luta – da mesma forma que consideramos um insulto ser consideradas não dignas de participar da grande vida histórica do Partido e da Internacional Comunista, desta forma não excluímos nenhum homem de participar do especial trabalho Comunista entre as mulheres.

Durante o ano passado, tivemos evidências dos lados positivos e negativos do trabalho Comunista entre as mulheres. Temos visto os lados positivos nos países onde as seções Comunistas da Internacional criaram órgãos, como na Bulgária e na Alemanha onde as Secretarias das Mulheres continuam o trabalho de organizar a educação das mulheres Comunistas, mobilizando as mulheres trabalhadoras e liderando-as à luta social. Nestes países, o movimento das Mulheres Comunistas tornou-se um dos mais fortes pontos da vida geral do Partido. Nestes países, temos muitas mulheres membros e militantes no Partido e massas ainda maiores de mulheres como companheiras de luta fora do Partido.

Onde há desejo, há um caminho. Desejamos a revolução mundial, logo, devemos encontrar o caminho de alcançar as massas de mulheres exploradas e escravizadas, sejam os contextos históricos fáceis ou
difíceis.

Deixe-me mostrar a você alguns exemplos de efeitos ruins da ausência de órgãos especiais para o trabalho entre as mulheres nos partidos Comunistas. Quando não há Secretarias das Mulheres ou órgãos semelhantes, observamos uma queda na participação de mulheres na vida do Partido Comunista e o afastamento do proletariado feminino da luta de sua classe. Na Polônia, o Partido se recusou até agora a criar órgãos especiais para trabalho entre as mulheres. O Partido se contentou em permitir a estas a lutarem em suas fileiras e participar de greves e movimentos de massa. No entanto, estamos
começando a perceber que isso não é suficiente para permear o proletariado feminino ao ideal Comunista. As últimas eleições para o regime provaram que a reação encontra seu mais forte suporte
entre as massas ignorantes de mulheres que ainda não foram permeadas pelo Comunismo. Isso nunca deve acontecer de novo.

Na Inglaterra, a organização para a condução de uma agitação sistemática entre o proletariado feminino é completamente ausente, o Partido Comunista da Grã-Bretanha se desculpou pela sua ineficiência, e tem continuamente recusado ou postergado a criação de um órgão especial para agitação sistemática entre as mulheres. Todo o estímulo da Secretaria Internacional das Mulheres tem sido em vão. Nenhuma Secretaria das Mulheres foi definida: a única coisa que tem sido feita é a nomeação de uma camarada como agitadora geral do Partido. Nossas camaradas organizaram várias reuniões para a educação política de mulheres Comunistas a partir de seus próprios números insuficientes. Essas reuniões alcançaram tão bons resultados que a definição de reuniões similares deve ser incentivada pelo Partido Comunista.

A atitude do Executivo do Partido Comunista da Grã-Bretanha é, em minha opinião, não somente um resultado de sua limitação financeira, mas em partes também de sua juventude e das falhas resultantes desta. Não quero submeter o Partido a sérias críticas aqui. O sucesso do Partido Comunista britânico na última eleição geral na Grã-Bretanha é a prova de sua forte determinação e seu sucesso prático. No entanto, a vitória eleitoral, bem como a atividade política e a reorganização que foram decididas, atribuem ao Partido Comunista britânico, em uma época em que, de pequeno partido propagandista, vai direto para as massas, se esforçar para organizar as mulheres proletárias. A seção britânica da Internacional não pode ficar indiferente ao fato de que em seu país muitas milhares de mulheres proletárias estão organizadas em sociedades de sufrágio feminino, sindicato de mulheres do modelo
antigo, em cooperativas de consumidores, no Partido Trabalhista e no Partido Trabalhista Independente. Compete ao Partido Comunista lutar com todas essas organizações para a cooptação de mentes, de
corações, de força de vontade e de ações das mulheres proletárias. Assim, em longo prazo perceberá a necessidade para a organização de órgãos especiais através dos quais será capaz de organizar e formar as mulheres Comunistas dentro do Partido, e fazer com que mulheres proletárias fora do Partido lutem pelos interesses de suas classes.

Em vários países, as mulheres Comunistas, sob a liderança de seu Partido, têm usado de toda a oportunidade para despertar as mulheres proletárias e liderá-las à luta contra o sistema capitalista. Esse
foi o caso, por exemplo, na Alemanha na luta contra a chamada Lei do Aborto, que foi usada para uma campanha vasta e bem sucedida contra a regra da classe burguesa e o Estado burguês. Essa campanha nos assegurou a simpatia e a adesão das grandes massas de mulheres. Foi apresentada, não como uma questão feminina, mas uma questão política do proletariado.

Percebemos, sem dúvida, a importância do trabalho espirituoso e preciso nos sindicatos e nas cooperativas. Para continuar o trabalho enérgico e sistemático nesses dois campos, é necessário que ganhemos influência sobre grande parte das mulheres e as recrutemos para a luta. Faremos isso influenciando as mulheres trabalhadoras através de seus sindicatos, e esposas proletárias e da pequena burguesia através do movimento cooperativo. Entretanto, quero ressaltar que em nosso trabalho não devemos levantar falsas ilusões. Pelo contrário, devemos fazer o nosso melhor para destruir a ilusão de que o movimento sindical e movimentos cooperativos dentro do sistema capitalista são capazes de trazer legislação para benefício do proletariado e de destruir os alicerces do capitalismo. Por mais útil
e indispensável que seja o trabalho do sindicato e das cooperativas eles não podem minar a queda do capitalismo.

As condições são especialmente favoráveis para reunir também mulheres não proletárias em torno da bandeira do comunismo. A decadência do capitalismo criou na Grã-Bretanha, na Alemanha e outros estados burgueses uma grande nova classe de ricos bem como uma grande nova classe de pobres. A classe média está sendo proletarizada. Por consequência, as exigências da vida estão puxando os cordões do coração bem como os cordões das bolsas de muitas mulheres que até então tiveram uma absurda existência segura e feliz sob o sistema capitalista. Muitas mulheres profissionais, de modo especial as intelectuais, como professoras, funcionárias públicas e funcionárias de escritório de todos os
tipos estão se rebelando e são pressionadas a lutarem contra o capitalismo. Camaradas, devemos aproveitar o fermento nos círculos dessas mulheres e transformar suas resignadas desesperanças em chama de indignação que levará à consciência e à ação revolucionária.

E as condições que podem tornar isso possível? Já mencionei que incursões perversas as condições atuais fazem na vida de milhões de mulheres, causando nestas o despertar de seu torpor. Tudo que
antes nos impedia, o atraso político e a indiferença das mulheres no geral, podem, sob pressão de um sofrimento insuportável, trazer mulheres adultas para o campo Comunista. Sua mentalidade é menos
afetada pela falsa e ilusória palavra de ordem dos reformistas social-democratas ou dos reformistas burgueses. Sua mentalidade é, com frequência, como uma folha em branco, por isso acharemos mais
fácil trazer as massas femininas, até então indiferentes, para nossa luta sem a transição preliminar através do sufrágio, pacifistas e outras organizações reformistas. No entanto, quero deixar uma nota de advertência. Não devemos ser tão otimistas e esperar que as mulheres se juntem a nós imediatamente à luta por nossos objetivos finais, mas podemos depender delas em nossa luta defensiva contra o ataque geral da burguesia.

Acredito que nossas camaradas na Bulgária nos mostraram uma boa forma de organizar mulheres. Elas fundaram sindicatos de mulheres simpatizantes. Esses sindicatos não são apenas centros de formação
preparatória para entrar no Partido Comunista, mas também são pontos de articulação efetivos de massas de mulheres para todas as atividades e ações deste. Nossas camaradas italianas começaram a
seguir esse exemplo. Elas também fundaram grupos de mulheres simpatizantes, incluindo mulheres que ainda relutam em entrar em partidos políticos ou comparecer a reuniões políticas. O exemplo não deve apenas receber reconhecimento de todos aqueles que fazem o trabalho Comunista entre as mulheres em todos os países, deve também ser seguido.

Camaradas, as mulheres Comunistas estão dentro das seções da Internacional dotadas com a consciência, com a vontade e com a energia necessárias para este trabalho entre as massas de mulheres? Não devemos ignorar o fato de que as mulheres bem como os homens Comunistas (uma vez que, no geral, não somos piores ou mais ignorantes do que vocês), muitas vezes carecem de formação fundamental, teórica e prática. O atraso e a insegurança das mulheres no movimento político só
refletem o atraso e a insegurança das fileiras Comunistas no geral. É de extrema importância superar o mais rápido possível a falta de formação e a ineficiência daqueles que realizam o trabalho Comunista entre o proletariado feminino. Assim, ordeno a todos que cuidem para que mulheres Comunistas dentro de suas fileiras sejam individualmente responsáveis pelo cumprimento das tarefas práticas do Partido. Veja que elas têm todas as oportunidades educacionais possíveis. Camaradas, a formação prática e fundamental de mulheres para tornarem-se valiosas operárias Comunistas na luta Comunista é parte de seu próprio trabalho educacional e um importante e indispensável pré-requisito para seu sucesso.

Todos os sinais dos tempos nos mostra que a sociedade é precisamente madura, ou melhor, demasiadamente madura para a queda do capitalismo. Não tivemos nenhuma prova de que a vontade do proletariado, a vontade da classe destinada a ser coveira da ordem capitalista está madura no sentido histórico da palavra. No entanto, camaradas, essa situação histórica é como uma paisagem alpina em que as gigantescas massas de neve repousam no topo da montanha por séculos, aparentemente impermeável ao sol, à chuva e à tempestade. Mas, apesar das aparências elas estão minadas, elas cresceram devagar e estão ‘maduras’ para serem lançadas para baixo. Talvez o bater das asas de um passarinho será suficiente para mover esta avalanche que irá soterrar vilas sob seu peso. Não sabemos quando nós, homens e mulheres, enfrentaremos a revolução mundial. Logo, não devemos perder uma hora sequer, ou melhor, deixar um minuto sequer passar sem trabalhar para a revolução mundial. A revolução mundial não significa apenas a destruição mundial e a destruição do capitalismo. Também significa a construção mundial e criação do Comunismo. Inspiremo-nos no real sentido da palavra: estejamos prontos e preparemos as massas para que estas se tornem as criadoras mundiais do Comunismo.

 

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