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Dona Catarina, exemplo e resistência da cultura do Povo Preto

O Movimento Feminino Popular saúda a memória da companheira Catarina, a Dona Catarina ou Mãe Tá, como muitos a conheciam. Saudamos a Mãe do Batuque, sua luta na defesa e difusão da valorosa cultura de resistência de nosso povo.

A companheira Catarina nasceu, cresceu e viveu na comunidade do Caxambu e sua vida e história está entrelaçada com a história da luta pela terra e a resistência do Brejo dos Crioulos. Destas terras de onde centenas, senão milhares, de nossos antepassados foram expulsos no século 20. Particularmente a partir das décadas de 1960/1970 quando sob o regime civil-militar os latifundiários grileiros fizeram uma ofensiva nessa região cercando e expulsando os posseiros e negros que já viviam nestas terras e impondo o que passaram a chamar de propriedade particular, com o aval e legitimação do velho Estado, sob comando do famigerado coronel Georgino. Mas a expulsão dos camponeses e quilombolas não aconteceu sem enfrentamento, como o exemplo de determinação e resistência de Saluzinho da Gruta, filho desta mesma terra onde nasceu nossa querida companheira. O fim do regime civil-militar, com a chamada redemocratização e a constituinte, não trouxe a tão necessária melhoria da vida para o povo pobre, nem do campo e nem da cidade. A terra segue concentrada nas mãos do latifúndio e muitos dos nossos foram e seguem obrigados a ir para cidade grande ‘tentar a sorte’.

E a luta pela terra segue até os dias de hoje como contradição principal no país, enfrentando os mesmos inimigos de classe devemos unir nosso povo para tomar todas as terras do latifúndio e devolvê-las aos camponeses, quilombolas e indígenas.

Em meio a ofensiva contrarrevolucionária da extrema direita latifundiária, bandos armados do “invasão zero”, acobertados pela PM e Força Nacional de Segurança promovem ataques brutais com assassinatos de camponeses, quilombolas e indígenas por todo o país. Enquanto isso, o governo se acovarda completamente e utiliza a política de apaziguamento com o latifúndio assassino e grileiro.

Não há nenhuma punição para os latifundiários, como exemplo dos assassinatos do companheiro Cleomar Rodrigues e também do companheiro Zé Gato, na Fazenda Torta. Além disso, o governo liberou 420 bilhões para o agronegócio no plano safra 2025 e apenas 76 bi para a chamada agricultura familiar.

Querem calar a nossa boca com pequenas concessões e tentar nos dividir para dançar a sua música. Mas queremos tudo que é nosso por direito! A nossa dança é a capoeira, é o batuque, é a luta verdadeira junto daqueles que sempre estiveram ao nosso lado, contra o latifúndio e o velho Estado.

O povo preto constitui o núcleo das forças – motriz e principal – da Revolução Brasileira, como maioria na classe operária e camponesa. Sendo toda a história da sua luta pela liberdade, como um prelúdio da luta que essa enorme e poderosa massa negra que conforma a aliança operário-camponesa, quem tem desencadeado ao longo dos séculos as lutas de libertação e é quem estádesencadeando as lutas para levar a Revolução de Nova Democracia até o fim. A Revolução é oúnico caminho para libertar toda a classe e demais massas populares e saldar definitivamente essadívida da humanidade com o povo preto e todos os povos oprimidos de nosso país e do mundo.

A luta pela autoafirmação do povo preto e toda sua história e cultura, a luta por enfrentar o genocídio do povo preto nas grandes cidades e no campo despertará como nunca tem sido ao longo de nossa história a fúria revolucionária organizada e invencível. Ressentimentos, desejos de vingança e fúria que há séculos vem sendo represados pela mais brutal repressão a ferro e fogo pelas classes dominantes exploradoras e opressoras. Não poucas vezes em seus levantamentos nossaluta foi desviada pela ação do oportunismo, com seus discursos adocicados de intelectuais pequeno-burgueses divisionistas, corporativistas e racistas, atados e como parte complementar ao velho Estado burguês-latifundiário a serviço do imperialismo.

A questão racial está historicamente vinculada à questão social, em particular a questão agrária, da propriedade da terra. Terra de onde os povos indígenas foram expulsos pela invasão dos conquistadores portugueses. Terra de onde o trabalho, suor e sangue do povo preto escravizado,extraíram riquezas para o reino de Portugal e para Inglaterra.

Terra que nos 525 anos de história de nosso país foi saqueada e negada ao povo pobre, negada aos negros pela famigerada lei de terras de 1850, vigente até os dias atuais, para enfim, negar a terra a todos os camponeses pobres! Assim nos encontramos em pleno século XXI e a questão agrária no Brasil permanece inalterada.

A Revolução é o único caminho para libertar toda a classe e demais massas populares e saldar definitivamente essa dívida da humanidade com o povo preto e todos os povos oprimidos de nosso país e do mundo. Convocamos camponeses, remanescentes de quilombolas e povos indígenas a lutar pela destruição do latifúndio! Tomar todas as terras do latifúndio e distribuir em parcelas aos camponeses pobres sem terra e com pouca terra, e aos quilombolas; impulsionar a produção e comercialização. Apoiar e defender a justa luta dos povos indígenas pela retomada e auto-demarcação de suas terras ancestrais. Se integrar de forma cada vez mais efetiva à Revolução Agrária em curso em nosso país, sem quaisquer ilusões.

Entendemos que homenagear Dona Catarina é saudar e reafirmar o exemplo de luta e resistência do povo preto em nosso país que é a imagem e semelhança das classes populares no Brasil e terá sua libertação particular, enquanto grupo étnico massacrado pelo sistema de exploração imperialista, com a vitória da revolução de todo o povo oprimido, o qual os negros fazem parte e são maioria.

Um pouco da história de nossa querida companheira

Filha de dona Jurdiana e senhor Santos, numa festa de Santo Antônio a jovem Catarina conheceu João Cardoso, com quem se casou e teve quatro filhos. Enfrentando as dificuldades para sobrevivência de cabeça erguida, e sempre apoiando os demais se tornou parteira. Fazia partos na claridade do candieiro, pois não havia energia elétrica na região. Exerceu o ofício em várias comunidades vizinhas, e ganhou o nome de Mãe Tá. Salvou várias vidas, o último parto feito por ela foi uma menina que hoje mora na comunidade e tem 17 anos.

A companheira Catarina, a Mãe do Batuque, desde a infância aprendeu o valor da cultura de resistência do batuque, da dança de sala, pastorinha, folia de reis. E fez da cultura sua trincheira de luta para defender e divulgar a história de resistência dos quilombolas e do povo brasileiro contra a opressão secular do latifúndio.

Era a cabeça do batuque na região, todos no Brejo a respeitavam, não só em Caxambu, mas Araruba, Orion, Boa Vistinha, Sebo, Furado Modesto, Tanquinho e todas as comunidades. Era daquelas mulheres que unia seu povo, por isso mesmo um grande exemplo. Sempre apoiando as lutas de seu povo pelas suas terras. No desenvolvimento da luta pela retomada das terras do Brejo dos Crioulos a reafirmação da história de resistência tem na difusão do batuque uma importante frente de batalha para unir o povo na luta contra o latifúndio e seu velho Estado. A Mãe do Batuque assumiu com valor seu papel: foram tomadas de terra, manifestações, enfrentamentos, comemorações, e a presença do batuque acompanhava o ritmo da batalha.A companheira Catarina esteve a frente do batuque reafirmando que a nossa dança é o batuque, a capoeira, a luta verdadeira junto daqueles que sempre estiveram ao nosso lado, contra o latifúndio e o velho Estado.

A companheira Catarina estimulou e envolveu todos a sua volta para dar continuidade a verdadeira cultura de nosso povo, e esse legado de nossa grande companheira marca presença na vida de todo povo dessa região. O batuque como expressão da mais verdadeira cultura da história do povo se perfilou e cantou a construção da Ponte da Aliança Operário-Camponesa, manifestações pelo país, nas denúncias do assassinato do companheiro Cleomar, nos encontros e eventos do MFP, nas celebrações do 8 de março e do 20 de novembro.

Mesmo com idade avançada sua energia contagiava a todos e convocava a celebrar a vida com luta e alegria, sua vida é marcada por histórias e casos que muitos podem compartilhar. Faleceu em 22 de outubro de 2023, aos 84 anos, por complicações de saúde; dias antes estava dançando e foliando no casamento de uma das netas e essa é uma das lembranças que nos deixa. Dona Catarina é uma das tantas heroínas que não permitiram que a cultura do Povo Preto fosse destruída. A resistência da cultura do Povo Preto, junto a luta pela terra e dignidade, é parte da sua luta pela construção de uma vida livre sem exploração e opressão.

Dona Catarina, exemplo e resistência da cultura do Povo Preto!

Viva a Mãe do Batuque!

Companheira d. Catarina. Presente na luta!

Homenagem à Dona Catarina feita pelo MFP.

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