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Anita Garibaldi – “A heroína dos dois mundos”

Publicamos biografia da grande heroína dos povos, Anita Garibaldi, pela passagem de seu natalício: em 30 de agosto.

Em meados do século XIX uma jovem mulher nascida no Brasil deixa o anonimato ao entrar definitivamente para o panteão das mulheres que dedicaram sua vida à causa da libertação dos povos oprimidos. A vida de Anita se confunde com processos revolucionários no Brasil, América Latina e Europa, e é marcada pela sua união com um dos maiores revolucionários no mundo à época: Giuseppe Garibaldi. Não seria possível descrever Anita Garibaldi sem falar da opressão e, principalmente, da resistência e luta do povo e da nação brasileira em conformação, além das dificuldades que teve que enfrentar enquanto mulher, numa sociedade profundamente conservadora e patriarcal, para poder viver para lutar pela liberdade.

A juventude de Ana

Ana Maria de Jesus Ribeiro nasceu em 30 de agosto de 1821 na cidade de Laguna, estado de Santa Catarina. Foi a terceira de 10 filhos de uma família humilde. Era filha de Maria Antônia de Jesus Antunes e Bento Pinheiro da Silva. O pai, tropeiro, frequentemente levava Ana Maria em algumas das suas viagens, transportando gado de Viamão/RS até feiras em Sorocaba/SP. Em função do convívio com o pai, tornou-se excelente amazona e laçadora. Seu pai morreu quando ainda era muito jovem e Ana, como parte de uma família humilde, viveu as mais profundas conturbações sociais de sua época.

Uma marca de Ana era a contestação de princípios morais que negavam os direitos das mulheres, mantendo-as em condição de subjugação. Foi alvo de preconceito da população local por não se enquadrar nos padrões exigidos à época para moças de sua idade. Aos 13 anos, quando voltava de um passeio na praia, foi atacada por um homem que tentou violentá-la. Ela resistiu e denunciou o fato a polícia, que não lhe deu ouvidos. O murmúrio entre os moradores da cidade se intensificou, considerando-a como “mulher perdida”, preconceito contra o qual nunca se resignou.

Após a morte do pai, Ana teve que se dedicar aos cuidados dos irmãos mais novos. Com isso, veio a pressão para que logo se casasse, o que aconteceu aos seus 14 anos, quando se casou com Manoel Duarte, sapateiro da cidade, para tirar o fardo econômico da sua família. O casamento, denunciado por Anita como uma “farsa” em uma carta enviada a seu tio Antônio, foi marcado pelo desinteresse no relacionamento por ambas as partes, e não gerou filhos. Com o estouro da Guerra dos Farrapos em 1835, Manuel Duarte foi convocado pelo exército imperial para combater a revolta, Ana nunca mais o viu. Anita considerou essa “ruptura” como uma libertação.

Sua família foi visitada diversas vezes por Antônio da Silva Ribeiro, tio paterno de Anita, quando este passava por sua cidade durante viagens como tropeiro. Antônio era republicano, e se declarava abertamente a favor de uma revolução como forma de conquistar a independência e a soberania do país. Devido a suas críticas à monarquia, foi perseguido e teve sua casa incendiada por soldados imperiais, o que o levou a se refugiar com parentes na cidade em que Anita morava. Seus ideais foram transmitidos à sobrinha, que logo se tornou também independentista e republicana, ainda muito jovem.

Após a ser abandonada pelo marido, Anita vai se integrar a uma das revoltas populares mais importantes da história do Brasil: A Revolução Farroupilha.

As lutas de libertação no Brasil e no mundo e a vida de Anita

O ano de 1835-1845 foi marcado pelo início da revolta armada conhecida como Revolução Farroupilha, que durou 10 anos na região sul do Brasil. Esta revolta foi parte de uma série de levantamentos populares ocorridos em várias províncias do Brasil durante o período regencial, como a Cabanagem no Pará (1835-1840), a Sabinada e a Revolta dos Malês na Bahia (1835), a Balaiada no Maranhão (1831-1841) e a Revolução Liberal em Minas Gerais (1842). Todas estas rebeliões armadas se levantaram contra os desmandos, a exploração e a opressão do Estado imperial brasileiro, representante dos interesses de países europeus que exploravam o país, impedindo a completa formação nacional do Brasil. O país estava sob domínio econômico principalmente da Inglaterra, que emergira como potência capitalista na Europa. A população estava constantemente submetida a impostos absurdos, o que impedia o seu desenvolvimento econômico. As lideranças destas revoltas eram influenciadas pelo pensamento da burguesia revolucionária à época, que impulsionou inúmeras insurreições, principalmente na Europa.

A extraordinária Amazona se torna uma corajosa combatente guerrilheira

O avanço da luta revolucionária no sul do Brasil definirá o destino de Anita. Em 1835 fora proclamada a República do Rio Grande e em poucos anos esta guerra atingiria diretamente sua cidade. Sob o comando do General Canabarro, em 22 de julho de 1839 os Farrapos tomam a cidade de Laguna, expulsam os imperiais e proclamam a República Juliana. Um grande personagem da história estava presente nestes combates, como comandante da frota naval farroupilha: Giuseppe Garibaldi, revolucionário italiano que, condenado a pena de morte em seu país e exilado no Brasil, tomou parte e se tornou um dos mais importantes nomes dessa importante luta revolucionária.

Em 1838, aos 18 anos, Anita se encontra com Garibaldi, surge então uma união de dois revolucionários que se tornam companheiros de toda uma vida e de luta sem quartel aos opressores. União que só terá fim com a morte prematura da combatente. Ana vai enfrentar todo o pensamento conservador e patriarcal ao se tornar uma combatente farroupilha e se unir como companheira a Giuseppe Garibaldi.

A partir de então temos vários relatos na história que testemunham a coragem da combatente. O próprio Garibaldi em suas memórias* relata a grande coragem de Ana, que passaria a ser conhecida a partir de então como Anita pela forma carinhosa como era chamada por Garibaldi. Participou de combates navais contra a marinha imperial com os farrapos em enorme desvantagem. Assim Garibaldi descreve sua postura diante do combate: “…sentíamos amparados nessa generosa resolução pela imagem da amazona brasileira que tínhamos a bordo. Anita não somente negara-se a desembarcar mas, mais que isso, armada com uma carabina, ela se engajara no combate.” “num instante em que, da ponte da escuna e com o sabre em punho, Anita encorajava nossos homens, um petardo de canhão a derrubou, juntamente com dois dos nossos combatentes… Ela porém reergueu-se são e salva. Os dois homens estavam mortos. Roguei-lhe então que descesse até o portão. ‘Sim, irei mesmo até lá – disse-me ela –, mas para tirar de lá de dentro os poltrões que nele se esconderam.’ Ela desceu e logo voltou, empurrando a sua frente dois ou três marujos, pejados por terem-se mostrado menos valente que uma mulher”.

Quando as tropas imperiais estavam por retomar Laguna e os farrapos tiveram que se retirar para Lages, ela demonstrou sua grande habilidade como amazona e participou de vários combates. Foi presa na batalha de Curitibanos, uma das batalhas mais sangrentas até então. Assim Garibaldi descreve a prisão: “… ela aproximava-se do local principal quando vinte cavaleiros inimigos, que perseguiam alguns fugitivos, passaram a atacar nossos soldados encarregados do transporte. Excelente amazona e montada num admirável ginete, Anita poderia ter disparado e escapado àqueles cavalarianos; porém, seu peito de mulher encerrava um coração de heroína. Em lugar de fugir, ela tratou de exortar os nossos soldados a defenderem-se, achando-se de súbito rodeada pelos imperiais. Um homem rendeu-se. Ela cravou as esporas no ventre do seu cavalo e arrojando-se vigorosamente, avançou por entre os inimigos, não recebendo senão uma única bala, que ultrapassou seu chapéu, alteando-lhe os cabelos, mas sem roçar-lhe o crânio.” Conseguiu se desvencilhar dos imperiais depois de presa fugindo a cavalo, viajando sozinha durante 3 dias e 3 noites, por caminhos extremamente difíceis, sem comer, até se juntar às tropas dos farrapos em Lages, onde todos pensavam que ela não havia sobrevivido.

A vida continuaria repleta de confrontos com as tropas imperiais numa constante mudança. Garibaldi, que havia perdido sua frota em Laguna, passará a combater em terra e demonstrará grande capacidade militar utilizando táticas de guerrilha. Em 1840 nasce Menotti, o primeiro filho do casal, em meio a duros combates. No décimo segundo dia do nascimento do filho, Anita teve que fugir de um sequestro com a criança, passando frio e fome até que conseguisse reencontrar Garibaldi. Foi quando o casal decidiu pedir dispensa dos serviços aos farrapos com a intenção de viajar para o Uruguai, onde poderiam fazer contato com a Itália mais facilmente. Em 1840 os Garibaldi recebem como pagamento pelos serviços militares prestados à Revolução Farroupilha novecentas cabeças de boi e fazem uma viagem de seiscentos e cinquenta quilômetros em cinquenta dias até chegar à capital uruguaia.

Sete anos no Uruguai

Em Montevidéu, Anita e Giuseppe Garibaldi se casam oficialmente e têm mais três filhos, Ricciotti, Rosita e Teresita. Uma das filhas, Rosita, morreria em 23 de dezembro de 1845 após uma doença que lhe sufocou, fechando-lhe a glote. No início, Giuseppe trabalhou como mascate e professor de Matemática. Mas logo ingressou na marinha uruguaia e, como comandante, lutou na guerra civil do governo de Montevidéu contra o general Rosas, presidente argentino que tinha como colaborador o uruguaio Oribe. A Inglaterra atuava com apoio militar direto nesta guerra por interesses econômicos contra o governo de Montevidéu. Garibaldi participará dos combates sem Anita, pois a estrutura militar daquele país não permitia mulheres a bordo para o combate. Anita então passa a maior parte do tempo com os cuidados da casa e dos filhos. Tinham muitos amigos nesta cidade, principalmente exilados italianos que ansiavam voltar à sua pátria natal. Durante períodos de maiores conflitos, Garibaldi organizou militarmente a Legião Italiana, assim como outros estrangeiros que também participaram da defesa no cerco de Montevidéu. A Legião Italiana enfrentou batalhas heroicas e mais uma vez Garibaldi se destaca como um habilidoso chefe militar.

De montevidéu à Itália

Em Montevidéu as notícias da Europa chegavam com maior rapidez. Em 1848 chegavam jornais italianos no porto da capital uruguaia que falavam de rebeliões importantes que estavam ocorrendo por toda a Itália. Garibaldi considerou este momento propício para voltar a sua pátria. Anita e os filhos chegam a Gênova alguns meses antes de Giuseppe para preparar a volta de seu companheiro, e é recebida com honras e glórias pelo povo italiano. O casal era famoso na Itália conflagrada. Anita se instala na cidade litorânea de Nice, junto a sua sogra, e logo toma parte novamente das rebeliões.

A luta pela unificação da Itália, luta de libertação nacional contra o domínio estrangeiro do império napoleônico e austríaco, entraria para a vida de Anita, assim como Anita penetraria na história desta nação. Ao se reencontrar com Giuseppe, declara que não aceitará ficar longe das batalhas, não poderia se resignar à vida de uma dona de casa quando todo um povo lutava pela liberdade. A Itália teria a prova da coragem e decisão de Anita, mais uma vez grávida, e vivendo os conflitos que uma mãe de 3 crianças pequenas que necessitam de cuidados a todo o momento vive. As crianças ficavam com um casal de amigos entre uma batalha e outra, em Nice.

A jovem Anita, com apenas 28 anos, entregaria seu sangue para a luta do povo Italiano. Sua última batalha foi em Roma. A jovem república romana estava cercada pelos austríacos, mas com revolucionários de todo o país que se voluntariaram para fazer sua defesa. Em julho de 1849, não é mais possível manter o combate, e há um recuo dos defensores da cidade. Anita estava entre os soldados, junto com seu companheiro de vida e de luta. Sua gravidez já avançava para o sexto mês e ela já estava muito doente. A fuga, muito complicada e exigindo muito esforço, fez seu estado de saúde piorar. Estava com febre tifoide e não resistiria. Em 4 de agosto de 1849 morre com bravura esta grande combatente, com os austríacos em seu encalço, na cidade de Ravenna. Anita morreu antes de poder presenciar a unificação da Itália, o que só veio a acontecer após mais de 2 décadas. É considerada pelo povo italiano como um símbolo de coesão, pois deu a vida pela pátria.

Não foi somente Garibaldi que chorou sua insubstituível perda. Os compatriotas italianos, os liberais uruguaios, os farrapos brasileiros e os republicanos dos dois continentes, que não puderam homenageá-la no derradeiro instante de sua morte, homenagearam-na depois, convertendo-a em milhares de placas e monumentos, que ergueram-se nos diversos países do Novo e do Velho Mundo.

No Brasil, após retomar o controle das províncias do sul, o império tratou de apagar os nomes dos líderes farroupilhas da história. O resgate do nome de Anita só aconteceu posteriormente, sendo relembrada então como defensora dos ideais republicanos, defensora dos povos dos oprimidos e símbolo da emancipação feminina.

Anita Garibaldi, mulher de coragem, enfrentou em sua vida uma grande carga de opressão, mas foi livre porque tinha consciência dessa opressão e lutou bravamente contra ela. Não se contentou com qualquer passividade diante de rebeliões e revoluções populares nos países onde morou. Lutava pelos povos e pela liberdade. Sua vontade de lutar não teve fronteiras e por isto é conhecida como heroína dos dois mundos, assim como seu companheiro Garibaldi. Inspirou e ainda inspira revolucionários e revolucionárias, mesmo depois de sua morte. Sua imagem e seu exemplo jamais serão apagados.

O corpo de Anita foi encontrado por algumas crianças no dia 10 de agosto enterrado numa praia, em Ravenna. Pela gravidez avançada, pôde se identificar como sendo o de Anita. Foi enterrado por um Padre de Ravenna e depois levado por seu companheiro para junto do túmulo da mãe de Giuseppe, em 1859 na cidade de Nice. Os restos mortais de Anita foram exumados várias vezes e hoje se encontram sob o monumento construído para ela no Gianicolo em Roma, desde 1932.

Assim como Anita Garibaldi, as classes dominantes reacionárias em nosso país tentam ou esconder ou enlamear a história das inúmeras heroínas de nosso povo, que dedicaram sua vida à causa da libertação de nosso povo e da nação brasileira. Mas sua memória jamais poderá ser apagada, sua bandeira vermelha segue erguida pelas mãos dos revolucionários e revolucionárias de nosso tempo e é questão de mais ou menos tempo para que triunfe a causa pela qual deram suas valorosas vidas essas mulheres, exemplo para todas nós. Ainda que a Itália tenha alcançado sua unificação e conformado um estado nacional, no Brasil essa tarefa segue pendente. Sendo nosso país uma semicolônia, principalmente do Estados Unidos, a causa republicana e independentista de Anita e dos Farrapos segue vigente e a tarefa pendentes da libertação da nação urge como necessidade para se transitar para o socialismo no rumo do luminoso comunismo, nossa meta final. Anita não foi uma comunista, nem podia no seu tempo, onde o marxismo surgia em luta implacável contra o anarquismo e as concepções socialistas utópicas da época. Mas seu exemplo resplandecente de heroismo e abnegação é fonte de inspiração, nos encoraja a seguir adiante e manter erguidas suas bandeiras. Anita foi uma grande revolucionária do seu tempo, foi uma mulher que passou por cima de todos os padrões, das imposições cruéis às mulheres, do preconceito, da subestimação e comprovou com seu exemplo a consigna de nosso movimento: Despertar a fúria revolucionária da mulher!

Companheira Anita Garibaldi: Presente na luta!

Viva a Revolução de Nova Democracia ininterrupta ao socialismo! Viva o povo e a nação brasileira! Morte ao imperialismo!

*Memórias de Garibaldi, de Alexandre Dumas.

Referências Bibliográficas:

Memórias de Garibaldi, de Alexandre Dumas.

Anita Garibaldi a mulher do general, da autora Anita Garibaldi, bisneta de Anita.

Vida e Morte de José e Anita Garibaldi de Wolfgang Ludwig Rau.

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