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Jovaldo, poeta comunista peruano: “Hoje, mais do que nunca, feroz”.

Homenagem aos heróicos combatentes do Partido Comunista do Peru nas Luminosas Trincheiras de Combate.

Artigo reproduzido do blog Servir ao povo.

Nota do blog: José Valdívia Domínguez, mais conhecido como “Jovaldo”, foi um poeta e revolucionário comunista peruano que declamava suas próprias criações literárias em praças, parques, ônibus, fábricas, atividades sindicais e comunidades camponesas nos anos 70 e início dos anos 80. Foi encarcerado pela reação na ilha penal de El Frontón. Em 19 de junho de 1986, Jovaldo foi um entre os cerca de 300 prisioneiros de guerra e presos políticos assassinados nas Luminosas Trincheiras de Combate de El Frontón, Lurigancho e Callao, em uma ação genocida perpetrada pelo governo aprista, fascista e corporativista de Alan García Pérez. Pela heroica e feroz resistência travada pelos combatentes revolucionários, este dia foi proclamado pelo Partido Comunista do Peru (PCP) como o Dia da Heroicidade, reconhecido por diversos Partidos Comunistas em todos os continentes.

Por ocasião dos 39 anos do Dia da Heroicidade, publicamos o poema “Hoje, mais do que nunca, feroz”, de Jovaldo, antecedido por uma entrevista do periódico El Nuevo Diario (posteriormente renomeado como El Diario) com sua mãe, Francisca Domínguez Flores, em 11 de julho de 1986, menos de um mês após o genocídio nos presídios peruanos. Outros poemas de Jovaldo podem ser encontrados aqui:

https://www.geocities.ws/frmlm_bo/docs/jovaldo.html.

[http://www.eldiariointernacional.com/spip.php?article752]

[https://anovademocracia.com.br/poema-fala-um-cantor-de-jovaldo/]

Também indicamos o documentário “Voz Dinamitada”, que aborda a vida artística e investiga os últimos dias do poeta do povo Jovaldo, apresentando os relatos de sobreviventes de El Frontón que conheceram-no. Mostra sua paixão pela poesia, sua forma de recitar e sua relação com o movimento de arte popular desenvolvido na década de 1970, a partir da Coordenação de Trabalhadores de Arte Popular (CTAP 19 de Julho, criado em homenagem aos operários assassinados na greve nacional de 19/07/1977). O longa é dirigido pelo escritor e cineasta J. Miguel Vargas Rosas.

[https://www.youtube.com/watch?v=TZV8vL_V84c]

HOJE, MAIS DO QUE NUNCA, FEROZ

Aqui, ali ou onde for

chocarão com um bastião;

Callao, Frontón, Lurigancho

não rendem sua condição.

Quando no jogo da classe

sua moral está na ação,

não importa o que nos passe

combatendo na prisão.

Se a Canto Grande pretende

transferir-nos a reação,

daqui não sairá nenhum

enquanto bater um coração.

Para tudo preparados,

com resoluta convicção,

estamos muito bem armados

com a justa concepção.

Não puderam os repuchos

dobrar nossa razão,

nem os fuzis dos marinheiros

ou qualquer carne de canhão.

Punho em alto, com violência,

levantamos nossa voz;

pela infernal resistência,

hoje, mais do que nunca, feroz.

Jovaldo”, morreu em El FrontónOs olhos sem lágrimas da mãe do poeta assassinado”. Francisca Domínguez, reprimida e encarcerada.

Nuevo Diario, Lima, sexta-feira, 11 de julho de 1986

Francisca Domínguez Flores, mãe de Jovaldo, poeta assassinado em El Frontón no dia 19 de junho, afirmou no início desta conversa que não derramaria uma única lágrima pela morte de seu filho, pois isso apenas alegraria os monstruosos rostos dos genocidas dos presídios do país.

Com uma ternura infinita, declarou que o sangue de seu querido filho e dos 300 presos assassinados correrá pelas terras e sulcos deste doloroso Peru e, dali, “germinarão como árvores frondosas os filhos do povo”.

Francisca Domínguez, mãe de quatro filhos, disse que o poeta Jovaldo foi o melhor de todos. Afirmou com orgulho que ele morreu de cabeça erguida, sem pedir perdão a seus assassinos.

Ela é uma mulher exemplar e, no mesmo dia do massacre (19 de junho), foi detida por membros da DIRCOTE,1 sendo mantida presa injustamente até 27 de junho. Durante o encarceramento, viveu talvez os momentos mais dramáticos relacionados ao genocídio dos 300 presos políticos. A acusação feita pela DIRCOTE contra ela foi carregar em sua bolsa um poema de seu filho Jovaldo.

Com os rostos transtornados, os policiais disseram a ela que aquele poema, o último de Jovaldo, era subversivo, e isso que seu título era apenas: “EU PERGUNTO À PRISÃO”.

Ela denuncia que as hostilizações contra os familiares de presos políticos continuam. E exige, “assim como centenas de mães do povo”, como diz, que entreguem o corpo de seu filho, que este governo lhe nega em aplicação de seu já inexorável caminho repressivo.

1DIRCOTE: Sigla para Dirección Contra el Terrorismo, unidade da Polícia Nacional do Peru encarregada de investigar e reprimir atividades consideradas “terroristas”, especialmente as ações da Guerra Popular durante as décadas de 1980 e 1990. – N.T.

Como você se sente por ter perdido seu filho?

Como mãe, me sinto profundamente triste por ter perdido o melhor dos meus filhos, mas não derramarei nenhuma lágrima, porque isso alegraria seus assassinos. O filho que perdi não é só meu, ele pertence a todo o povo. Sinto orgulho disso, e esse orgulho me dá forças para seguir adiante.

Você não teme que a polícia volte a encarcerá-la?

Com meu filho aprendi a não ter medo de dizer a verdade. Além disso, sou apenas uma entre milhares de mães de filhos desaparecidos.

Por que seu filho Jovaldo foi preso?

Meu filho cumpriu três anos e meio de prisão até o dia que o assassinaram, sendo que o promotor havia pedido apenas dois anos de detenção para ele. Jovaldo foi preso por estar ao lado do povo, porque desde muito jovem lutou contra a injustiça, contra a corrupção, porque queria um mundo melhor para as crianças e os pobres deste país. Ele buscava a liberdade e uma verdadeira paz, sem homens, mulheres e crianças morrendo de fome. Esse foi o crime do meu filho. Por isso, e apenas por isso, o fuzilaram até a morte naquela madrugada de 19 de junho.

Por que a senhora diz que Jovaldo foi o melhor de seus filhos?

Sempre sentirei orgulho dele. Foi um escritor e poeta comprometido com o povo e suas lutas. Ele caiu de cabeça erguida, com dignidade, sem medo de abraçar a ideologia do povo. Jovaldo jamais se ajoelhou diante do inimigo. Ele, ao lado dos 300 filhos do povo assassinados, sabia que este governo preparava um genocídio nos presídios, e não recuou, defendeu sua vida com moral elevada e o direito de pensar como um homem livre.

Que exemplo seu filho deixa para esta geração?

Ele deixa uma grande verdade: quando um homem cai lutando, jamais perece. Os que se ajoelham e se vendem por um prato de lentilhas são os covardes, aqueles que, mesmo mortos, continuarão sendo escravos.

Os verdadeiros homens são aqueles que lutam contra a injustiça, aqueles que, sem temor, enfrentam todos os dias os eternos inimigos do povo. Eles, como meu querido filho, não têm apenas uma mãe; na verdade, são filhos de todo o povo.

Você acha que os crimes de 18 e 19 de junho impedirão o surgimento de jovens como Jovaldo?

O governo acredita, equivocadamente, que ao assassinar os filhos do povo deterá a marcha da história. Não, isso é absurdo. O mundo continuará girando e os homens continuarão caminhando, cairão, mas voltarão a se levantar, até erguer-se como os verdadeiros redentores da justiça.

Como foi o último encontro com seu filho?

Foi em El Frontón. Naquele dia, ele me disse: “Mãe, a qualquer momento nos atacarão. Estão nos provocando de mil maneiras. Nos tiram a água, nos negam alimentos, cortam a eletricidade, nos isolam de nossas famílias.”

Os dias que antecederam o genocídio foram muito difíceis para os familiares dos presos políticos. Estávamos cientes dos planos criminosos do governo aprista.

Que esperança lhe traz a morte de seu filho?

Ele não morreu em vão. Assim entendemos nós, mães que nascemos no seio do povo. O sangue do meu filho e de todos os assassinados nas prisões regará as terras e os sulcos áridos e dolorosos deste país e, sem dúvida, dali germinarão, como árvores frondosas, os filhos do povo. Esse sangue dos presos assassinados não apenas manchou as mãos dos genocidas, mas, como diz um poema épico, “regou os campos da terra”.

Agora, o que você exige deste governo?

Este governo se sustenta na mentira. Agora nem sequer quer entregar os corpos de nossos filhos. Como mãe, o mínimo que exijo é que me entreguem o cadáver de Jovaldo.

O que você diria às outras mães que também perderam seus filhos nos presídios?

Eu diria às mães, às esposas e aos filhos que não desanimem. A morte de seus entes queridos não foi em vão. Eles indicaram o caminho de heroísmo do povo, e esse é o preço que muitas vezes se paga pelas grandes transformações do mundo. Por isso, é preciso ter fé que esses tempos difíceis e dramáticos passarão, assim como passam as noites escuras no mundo.

Por fim, faço um chamado ao povo peruano e a todos os oprimidos para que se unam na luta contra este regime genocida. Hoje, eles mataram presos indefesos; amanhã, continuarão seus assassinatos contra qualquer um que se oponha a seus planos políticos e militares.

[“JOVALDO”, o poeta assassinado, cujos versos e cantos continuarão percorrendo os povoados e as fábricas.]

[Francisca Domínguez: “Jovaldo” foi o melhor dos meus filhos.]

JOVALDO, o poeta do povo, foi assassinado no trágico 19 de junho em El Frontón. Seu verdadeiro nome era José Valdívia Domínguez [1951-1986], tinha 34 anos e foi preso em 29 de março de 1983. Seu grande crime: escrever poemas e distribuí-los entre os trabalhadores e o povo.

Os trabalhadores lembram como esse poeta do povo se dedicava incansavelmente à difusão de sua literatura desde 1974. Agora, caiu sob as balas de seus algozes genocidas, e seus poemas, como cânticos épicos, talvez alcançando os céus, continuarão a circular de fábrica em fábrica, até se perderem na eternidade.

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