Tradução não oficial feita pelo site do MFP.
Os operários alemães no período inicial da luta de classes e a questão do trabalho profissional feminino
Os inícios do movimento feminino proletário organizado sobre bases classistas na Alemanha, estão indissoluvelmente ligados ao devir e o amadurecimento da concepção socialista da sociedade no seio do proletariado, e a sua concepção classista e a sua representatividade política e social através de um partido de classe solidamente estruturado. Tais inícios representam um componente que anuncia a sua ulterior ampliação. Os primeiros esforços importantes feitos para unificar o proletariado na base da luta de classe proletária se registraram, em particular, no contexto do incipiente movimento sindical. Estas primeiras aspirações têm caráter social-democrata porque, ao contrário do que acontece em outros países (especialmente na Grã-Bretanha), os sindicatos alemães haviam sido criados pelos partidos políticos. Enquanto o Congresso da Sociedade Operária de Cultura, celebrado em Nuremberg em setembro de 1848, decidia a unificação dos operários em “sindicatos centralizados”, e o Congresso Geral dos Operários Alemães de Berlim, dirigido pelo lassaliano J. B. von Schweitzer, sentava as bases para a formação de “Ligas Operárias”1, os progressistas da parte burguesa tentavam criar entre a classe operária uma espécie de “tropa de choque” sindical. No entanto, as uniões sindicais (Gewerkvereine) criadas por Hirsch e Duncker2 com a insígnia da concórdia não tiveram muita importância, tanto no movimento sindical quanto, em geral, na organização econômica das mulheres operárias. As organizações sindicais mais importantes, os sindicatos cristãos, cuja base é, ademais, confessional, não surgiram senão mais tarde. Até finais dos anos sessenta os dois partidos social-democratas – embora divididos – criaram sindicatos rigidamente caracterizados pela contradição entre capital e trabalho, e mantinham uma atitude claramente antagônica em respeito à classe empresarial. Quase no mesmo período, os lassalianos e eisenachianos puseram também em marcha sua organização sindical, que também contava com expoentes femininos. Na verdade, é óbvio que a tremenda situação de miséria das operárias, e a sua repercussão sobre a miséria dos operários e de todo o proletariado, jogasse um papel tremendamente importante e decisivo. A petição de que fosse legalmente proibido o trabalho industrial para as mulheres havia acompanhado desde o princípio o processo de clarificação de consciência da classe proletária. A resposta a esta petição ressoava agora com uma determinação muito maior; não a qualquer tipo de proibição para as mulheres trabalharem na indústria, sim à organização e a luta comuns entre operárias e operários contra a usura do capital! O progresso das ideias socialistas fazia que nesta resposta existisse algo mais que a simples expressão das condições necessárias para uma defesa eficaz contra as garras do vampiro capitalista. E ele era a simpatia, a compreensão pela plena igualdade do sexo feminino e sua determinante importância.
Em seu opúsculo de 1866, O direito das mulheres ao trabalho assalariado, Louise Otto-Peters polemiza com a social-democracia lassaliana, e escreve:
Os lassalianos enunciaram o seguinte princípio: “A situação da mulher só pode ser melhorada se se melhora a situação do homem.” Este é um princípio que ultraja todo sentido de civismo e humanidade e nos opomos ao mesmo com toda nossa consciência e com este escrito. Precisamente este partido, que tanto confia nas “ajudas estatais”, exclui as mulheres de todas as suas reivindicações; ele demonstra que quer fundar seu reino de liberdade, ou o que é o mesmo, “o domínio do quarto Estado”, sobre a escravidão das mulheres, posto que quem não é livre para trabalhar para si mesmo não é mais que um escravo.3
Este violento ataque contra a Associação Geral dos Operários Alemães pode muito provavelmente explicar-se como fruto do uso inadequado que, no círculo de lassalianos, se fazia da chamada lei de ferro dos salários. A “lei de ferro dos salários” era uma arma mediante a qual Lassalle podia vencer facilmente a muitos rivais burgueses, e ainda mais enquanto que uma certa validez da lei não podia ser posta em dúvida, ainda que de forma relativa, por parte da burguesia. Marx, pelo contrário, não a havia reconhecido nem como “lei”, nem como “férrea”. Para o jovem movimento lassaliano, a “lei de ferro dos salários” representava mais um bastão para golpear do que como um pilar para apoiar-se. Lassalle, mediante esta “lei” baseada em fatores mais biológicos que histórico-econômicos, havia tentado demonstrar que, na época do regime salarial, era absolutamente impossível que se produzisse um aumento constante da renda do proletariado que superasse o mínimo para a sua sobrevivência. Algum de seus seguidores pode afirmar, portanto, que o salário das mulheres não representaria nenhuma melhora duradoura na situação da família operária; somente poderia incrementar a concorrência em torno ao Lohnfonds (fundo de salários) de uma força de trabalho que já era barata, e que a melhora da situação dos operários somente se obteria mediante a eliminação do sistema salarial. Esta afirmação está baseada em uma verdade histórica bem intuída, porém mal demonstrada: ou seja, que do mesmo modo em que somente é possível a emancipação do proletariado mediante a eliminação das relações de produção capitalistas, também a emancipação da mulher só é possível através da abolição da propriedade privada. No entanto, desde esta verdade até a radical exclusão das mulheres de todo movimento político e sindical, há um longo caminho. Aparte desta proclamação do suposto princípio citado, não existe nenhum rastro da orientação e interpretação que lhe dá Louise Otto-Peters.
É possível que a dirigente feminista, com seu juízo condenatório, desafogasse todo o seu rancor, e Lassalle e seu partido puderam tranquilamente reivindicar o direito ao voto somente para os homens. Esta limitação da consigna do sufrágio universal não provinha de um rechaço radical à igualdade da mulher, senão que melhor correspondia à tática de Lassalle de concentrar toda a energia em um só punho, para poder assestar um único golpe, evitando com isso ficar debilitado por algum tipo de dispersão. Devia parecer muito estranha a absoluta firmeza feminista de princípios, frente as precauções puramente oportunistas e taticistas, por quanto as proponentes burguesas da igualdade do sexo feminino se limitavam naquele período a emancipação econômica e então, como mais tarde, continuaram dando voltas em torno da questão do direito de voto das mulheres, sem nunca chegar ao núcleo do problema. Por acaso não teria precisamente escrito a mesma Louise Otto-Peters na Chamada de uma jovem e repetido depois em seu “Jornal das Mulheres” que as mulheres que esqueceram seus direitos são também elas esquecidas?
As obras dedicadas ao período inicial do movimento operário social-democrata alemão e ao desenvolvimento dos sindicatos, em particular, contém escassíssima informação acerca da atitude da Associação Geral dos Operários Alemães com respeito a questão do trabalho das mulheres na indústria e a organização sindical das operárias. Com base no material existente, parece, que esta atitude, até meados nos anos 1860, todavia, não era unitária e definida. Eduard Bernstein, no primeiro volume do seu História do movimento operário berlinense, escreve que em 15 de janeiro de 1866, na sede da Associação Artesanal dos Subúrbios de Berlim, se convocou uma assembleia social-democrata que anunciava na ordem do dia a seguinte proposta do livreiro Schlingmann: “O trabalho feminino e as mulheres dos operários”. Tendo em conta a situação dos partidos da Berlim de então, devia tratar-se de uma assembleia dos lassalianos. Eduard Bernstein escreve, entre outras coisas:
A proposta e o debate manifestaram a incerteza reinante naquele período, nos círculos socialistas, sobre a atitude a adotar com respeito à questão do trabalho da mulher. A confusão não era, no entanto, maior do que a que se havia registrado no seio da burguesa Sociedade Política-Econômica (Volkswirtschaftliche Gesellschaft) de Berlim, a qual também se havia ocupado da mesma questão quatro semanas antes. Pelo contrário, enquanto que na Sociedade Política-Econômica a melhor solução que se havia prospectado ao problema do trabalho feminino havia sido, com toda seriedade, a do trabalho doméstico, esta espécie de solução foi violentamente rechaçada pela assembleia operária. A qual, por outro lado, superou o impasse teórico transferindo a emancipação da mulher ao Estado socialista do futuro e estigmatizando as aspirações ao trabalho feminino na indústria, já que as considerava um meio de fornecer aos capitalistas força de trabalho a preços ainda mais baratos.4
É evidente que uma estigmatização não podia fazer justiça ao complexo problema do trabalho feminino na indústria. Como teoria é insuficiente e, como prática, é ingênua, posto que somente tem em conta o lado mais extravagante [aparatoso] do trabalho da mulher na indústria, mas que somente se produz dentro da ordem burguesa. Se de todos os modos fosse necessária uma confirmação concreta que demonstrasse até que ponto está justificada a estigmatização da exploração capitalista das proletárias como força de trabalho mais que barata, ela nos vem precisamente de Berlim, dois anos mais tarde, e com máxima evidência. Em Berlim, ocorreu um procedimento penal durante o qual se pôs de manifesto o inferno da miséria a que os criminosos exploradores haviam lançado as operárias da indústria da confecção. O tribunal confirmou, de modo inapelável, o que Eugène Pottier, o poeta de “A Internacional” havia afirmado, sem exagerar, ao definir a sociedade capitalista como a encarnação da “grande devoradora de homens” da antiga lenda. Fato após fato demostravam, por sua vez, a profunda “sabedoria” burguesa que recomendava calorosamente o trabalho a domicílio como a “melhor solução” a todos os conflitos que surgem no terreno da economia capitalista, em relação ao trabalho industrial e profissional das mulheres.
A descrição deste importante episódio do movimento operário berlinense feita por Franz Mehring segue tendo valor histórico na atualidade. A miséria das trabalhadoras a domicílio segue sendo proverbial na Alemanha, e a ávida fera capitalista continua nutrindo-se desta carne. No segundo volume de sua História da social-democracia alemã podemos ler o seguinte:
… e pela primeira vez se levantou uma borda do véu que ocultava os espantosos mistérios da indústria de confecção, que em Berlim havia conseguido alcançar um grande desenvolvimento e que já começava a vangloriar-se de ser a primeira do mundo.
A exploração nesta indústria havia alcançado cotas tão altas que os capitalistas, em sua presunção, não se envergonhavam sequer de trazer à luz do sol seus métodos canalhas. Tinham o costume de entregar a suas trabalhadoras a domicílio lã úmida, a qual se secava durante o processo de confecção, lucrando-se assim ao recolher a mercadoria já pronta com a diferença de peso por operária, que era subtraída de seu salário e seus abonos. Uma delas, Schulze-Siebenmark, chegou até ao ponto de denunciar ao procurador do Estado por apropriação indébita a uma de suas vítimas que não queria se deixar enganar. No entanto, a operária acusada foi absolvida pelo tribunal, porque durante a instrução do processo se viu que a empresa Schulze-Siebenmark costumava enganar sistematicamente as suas operárias, já exploradas até chupar-lhes o sangue. Este processo fez muito barulho e atraiu a atenção geral sobre a indústria de confecções berlinense. Se viu então claro que sua prosperidade se devia somente a ruína moral e física em que havia caído a milhares e milhares de jovens operárias.
Estas pobres criaturas tinham que trabalhar desde as primeiras horas da alvorada até o início da noite, se quisessem ganhar o suficiente para não morrer demasiado rápido de fome. Quando, finalmente, seus cansados olhos já não conseguiam ver nada devido a escassa iluminação, com a qual a vista salutar não poderia nem sequer reconhecer um fio, seu único alívio eram umas poucas horas maldormidas, o único prazer que a vida lhes poderia reservar.
Com todo este tormento ganhavam, no máximo, cosendo pano ou xerga, 10 groschen5 ao dia, cosendo roupa branca quase 8, em trabalhos de tapeçaria 3 ou, no máximo, 5 groschen. A única saída desta terrível miséria era a prostituição, que acabava por levá-las, sob o controle da polícia, às casas de trabalho, ao cárcere ou a uma morte miserável.
É preciso reconhecer que quando esta situação se tornou conhecida, os ambientes burgueses se viram acometidos por um calafrio de horror. Inclusive os manchesterianos mais autênticos chegaram, no mínimo, a desaprovar os métodos canalhas com os quais eram roubados das operárias da indústria da confecção aqueles poucos miseráveis groschen que constituíam seus salários de fome. Somente a polícia prussiana demonstrou estar à altura dos criminosos métodos de saqueio capitalista: dissolveu as assembleias operárias nas que se havia de discutir a situação das operárias da confecção, porque elas mesmas participariam destas assembleias. A polícia não tinha o direito de dissolvê-las, nem sequer segundo a lei prussiana sobre associações; porém impulsionava-a unicamente o prazer sádico de ver sofrer os “mais pobres entre os pobres”. A “monarquia social” se mostrava tal como era.6
A polícia berlinense conhecia seu ofício. Sabia avaliar o horror que havia comovido os círculos burgueses e a expressa repulsa dos fortalecidos [endurecidos] manchesterianos ante as práticas bandidescas como uma ventania que não poderia modificar em nada a essência do capitalismo e de seu Estado. No entanto, levou acertadamente a sério as assembleias operárias públicas nas quais também participavam as operárias da confecção. Era altamente significativo que os mais explorados e oprimidos se mostrassem à luz do dia para defender sua causa. Isto não somente representava uma clara manifestação de até que ponto era insuportável sua miserável condição, senão também o início de uma rebelião, a difusão das ideias socialistas inclusive nos barracos mais desconsolados, nos quais adoeciam física e moralmente as operárias a domicilio.
Neste mesmo ano em que a exploração capitalista do trabalho industrial feminino foi posta tão desapiedadamente à nu, os mais influentes entre os lassalianos e os operários dirigidos por eles assumiram uma atitude unificada sobre a questão e a controvérsia que estava na ordem do dia. Em 27 de setembro de 1868 se reuniu, em Berlim, um congresso geral dos operários alemães – que já citamos antes – e que havia sido convocado por Fritzsche e J. B. Schweitzer. A principal tarefa que se haviam proposto, a fundação de sindicatos – os lassalianos os chamaram Arbeiterschaften – e a reunificação destas Arbeiterschaften em uma liga, foi levada a termo. Também se discutiu acerca do problema do trabalho das mulheres na indústria, problema que estava ligado com os anteriores, chegando a conclusão de admitir as mulheres na qualidade de membros nas Arbeiterschaften. Não faltaram delegados que se declarassem contrários ao trabalho industrial das mulheres e sua admissão nos sindicatos. No entanto, se tratava de uma minoria que encontrou a decidida oposição do alfaiate Schob e de outros companheiros. Estes delegados sublinharam em particular o fato de que se as operárias se organizassem, este seria o meio mais eficaz para combater sua concorrência como força de trabalho mais barata e todas as outras consequências negativas estavam unidas ao seu ingresso na exploração industrial capitalista. O congresso não expressou nenhuma proibição concernente ao trabalho das mulheres nas indústrias; nas Arbeiterschaften, criadas em conformidade com suas resoluções, podiam entrar operários e operárias, pequenos empresários e pequenas empresárias. Participaram no congresso 200 delegados que representavam um total de 110 localidades e de 142008 operários. Sua tomada de posição acerca do trabalho profissional e acerca da organização sindical das mulheres deu boa prova da mudança que se estava produzindo nas concepções de amplos círculos proletários.
Parece que, contudo, a organização das operárias nas Arbeiterschaften lassalianas não foi além do nível puramente teórico. O desenvolvimento destes sindicatos não registra a inscrição de membros femininos, nem sequer a esperada mobilização no seio das operárias e das pequenas empresárias. Por outra parte, faltam dados relativos à militância feminina. A contribuição da social-democracia de tendência lassaliana aos inícios do movimento feminino proletário de classe foi, portanto, de pouca substância. Na minha opinião, o motivo fundamental não reside tanto no rechaço à igualdade do sexo feminino como, em troca, a estreita e sectária atitude dos lassalianos de estrita observância, para os quais o sufrágio universal representava o alfa e o ômega do movimento operário, o único objetivo e o único instrumento de luta no qual deviam concentrar-se todas as energias. Esta atitude, unida a sua fé na validez da “lei de ferro dos salários”, impedia uma adequada avaliação dos sindicatos e das tarefas concretas que deviam assumir no âmbito da economia capitalista.
O próprio Lassalle rechaçava os sindicatos com um simples gesto de sua mão; o mais inteligente e cultivado de seus seguidores, J. B. von Schweitzer, os considerava unicamente organizações preparatórias e auxiliares da luta política. Finalmente, consideravam os ortodoxos da Associação Geral dos Operários Alemães como possuídos pela heresia e pela traição. A assembleia geral do partido celebrada em Hamburgo, em agosto de 1869, não havia aprovado a convocatória do Congresso Geral de Berlim, do qual já falamos em linhas gerais. Fritzsche, ex-combatente nas barricadas das sangrentas jornadas de maio de Dresden em 1849, e von Schweitzer, se viram obrigados a convocar pessoalmente o Congresso. Inclusive depois do Congresso, as assembleias gerais dos lassalianos declararam várias vezes a separação dos sindicatos, considerados uma traição. Assombra o fato de que as Arbeiterschaften não tenham organizado e reunido o considerável número de proletários representados no Congresso e que, pelo contrário, o número de seus filiados experimentara um sensível descenso. Nestas circunstâncias, esperar um trabalho de propaganda e de organização ativa dos lassalianos entre as mulheres exploradas pela indústria teria sido o mesmo que achar agulha no palheiro [coger los higos por las espinas].
Em troca, as sociedades operárias de cultura realizaram, sem sombra de dúvidas, um valioso trabalho propedêutico nas primeiras fases de desenvolvimento do movimento feminino proletário. Assim o testemunham os congressos anuais da Liga das Sociedades Operárias Alemãs a partir da segunda metade dos anos 1860. Com isto, não se quer afirmar que já existisse uma análise socialista totalmente desenvolvida daquele conjunto de questões extremamente amplas e intrincadas, que caracterizavam a industrialização do trabalho feminino, cuja transformação o converte em um fator revolucionário de primeiro plano. O incompleto conhecimento teórico, que todavia se encontrava em fase de desenvolvimento, contribui, por outra parte, a compreender o fato de que naquele momento o significado das contradições de classe no mundo feminino foi interpretado e avaliado de forma completamente parcial, permitindo com isso a sobrevivência das concepções femininas estritamente burguesas, as quais nem sequer estavam submetidas a modificações e não denunciavam nenhum contraste. Porém, existem já alguns elementos essenciais de conhecimento marxista que começam a se fazer sentir, e isto foi devido a crescente influência da I Internacional. Se começa a compreender que o trabalho profissional da mulher representa a base que sustenta os objetivos de igualdade social do sexo feminino, já que sem a independência econômica da mulher a respeito do homem e da família, a emancipação é algo completamente impossível. Se começa a compreender que não é o trabalho industrial da mulher por si mesmo, senão a sua exploração capitalista, o que é origem e fonte dos múltiplos e horrorosos fenômenos que o acompanham. A maioria dos representantes da Sociedade Operária de Cultura tira as oportunas conclusões práticas destes conhecimentos. Nenhum veto ao trabalho feminino industrial, porém limitação legal ao superpoder capitalista de exploração indiscriminada; apoio às reivindicações para a igualdade do sexo feminino. É evidente que uma tomada de posição coerente não podia se conseguir sem atritos e resistências, os quais estimularam um apaixonado trabalho de clarificação entre os membros da Sociedade e sua esfera de influência. A este respeito, não somente foram os poucos ideólogos burgueses no seio das organizações de cultura os que obtiveram os melhores resultados, senão também simples proletários.
No III Congresso da Liga das Sociedades Operárias Alemães, que se celebrou em Stuttgart a princípios de dezembro de 1865, o trabalho profissional e a emancipação da mulher foram energicamente defendidos pelos participantes. O Congresso saudou calorosamente a iminente convocatória da primeira conferência das mulheres alemães que ocorreria no mês de outubro em Leipzig. Ademais, o Congresso se ocupou da questão feminina. Moritz Müller-Pforzheim apresentou um brilhante informe. Bebel conta em suas memórias:
O informe sobre a questão feminina foi apresentado por um fabricante de bijuteria um pouco estranho, porém apaixonado e benévolo a sua maneira, o qual desenvolveu o problema de forma especial. Em seu informe escrito pedia a plena igualdade social do homem e da mulher, a criação de institutos superiores para as operárias e a fundação de associações de operárias.7
O Congresso dedicou bastante tempo a discutir a questão feminina. O professor Eckhard declarou explicitamente que a emancipação da mulher incluía a concessão do direito de voto às mulheres, do mesmo modo em que o Congresso o reivindicava aos homens. A resolução de Müller, com este último acréscimo, foi aceita por uma discreta maioria.
A sede das reuniões do Congresso era Liederhalle. Quarenta anos mais tarde, em agosto de 1907, se reuniu no mesmo local o primeiro Congresso Operário Internacional (Congresso Internacional dos Trabalhadores), que ocorreu na Alemanha. Nos referimos àquele memorável Congresso da II Internacional, que adotou solenemente uma resolução pela qual os partidos social-democratas de todos os países se comprometiam a, em caso de guerra, aproveitar a situação para derrotar o capitalismo. O mesmo Congresso decidiu, ademais, que todos os partidos social-democratas tinham o dever de dirigir as lutas pelo direito ao voto, incluído o direito de voto para as mulheres, ou seja, direito de voto universal, igual, secreto e direto para todos os maiores de idade, sem discriminação de sexo. E com isso rechaçava qualquer concessão oportunista, tanto em direção aos partidos liberais, que temiam o direito de voto das mulheres, como as correntes feministas que se contentaram com o “direito de voto para as damas”. O Congresso da II Internacional, com isso, fazia sua a resolução da primeira Conferência Socialista Feminina Internacional, que a havia precedido, e que havia dado vida pela primeira vez à união ideológica e organizativa do movimento feminino socialista dos distintos países. Também esta conferência teve sede em Liederhalle. O epílogo destes congressos e de suas resoluções o escreveu a Primeira Guerra Mundial, com a traição da solidariedade proletária internacional e com a renúncia ao direito de voto da mulher por parte dos socialistas franceses e belgas no pós-guerra. Quanto progresso em 1865 e quanto retrocesso em 1914!
O IV Congresso da Liga se celebrou em 7 de outubro de 1867 em Gera e tratou dos mesmos assuntos que o anterior. A ordem do dia enumerava, entre seus pontos, a questão do trabalho feminino e do movimento feminino. O informante foi de novo Moritz Müller. Propôs para que fosse aceito o seguinte texto:
As sociedades operárias alemães reunidas no atual Congresso Operário declaram: que as mulheres têm direito a desempenhar qualquer trabalho para o qual se sintam capacitadas. Os preconceitos e os obstáculos legais que, todavia, se interpõem aos direitos das mulheres devem ser eliminados. É dever da família, do município e do Estado prover a criação de institutos educativos femininos adequados, e parecidos em tudo e por tudo com os masculinos. A tarefa das sociedades operárias consiste em eliminar por todos os meios os obstáculos que se encontram nas leis, nos costumes, nos hábitos e nos preconceitos existentes e que se opuseram à realização destas resoluções.
Parece que estes enunciados, apesar do seu caráter feminista-burguês, não encontraram nenhum tipo de oposição. Poderia se dizer como paródia que o Congresso quis ser mais papista que o Papa, reivindicando a plena igualdade de forma mais decidida que muitas feministas daquela época. A declaração da Associação Geral das Mulheres Alemães, no que se refere ao trabalho industrial da mulher, foi aprovado por aclamação.
A atitude das Sociedades de Cultura acerca dos problemas tratados representou, indiscutivelmente, um passo importante a respeito da concepção então imperante entre os proletários organizados. Estes consideravam basicamente os fenômenos concomitantes à inserção das mulheres na atividade profissional desde o ponto de vista da concorrência entre o trabalho masculino e feminino, e suas consequências. Sua consigna era, portanto: contenção e possível abolição da atividade profissional das mulheres. Os assustava o aspecto reacionário do trabalho feminino ligado a sua exploração por parte do capitalismo, e se negavam a aceitar o seu aspecto revolucionário e as conseguintes reivindicações dos direitos das mulheres. Os proletários recém [apenas] deixaria apenas mesmo estavam começando a entender a necessidade da assistência social, assim como, e especialmente, as possibilidades de aliança e de luta das trabalhadoras. Pelo contrário, as Sociedades Operárias de Cultura entreviam e sabiam apreciar nas reivindicações femininas, antes de tudo, a força de propulsão histórica, o estímulo e a mobilização de forças sociais – que durante séculos estavam acorrentadas – que estavam solicitando, agora, poder desenvolver-se livremente, participar na criação de condições sociais que colocassem o destino das mulheres nas suas próprias mãos. Para a maioria dos membros das organizações de cultura, o movimento feminino lhes parecia um movimento de libertação social, muito parecido no essencial ao que estava desenvolvendo o proletariado. As Sociedades de Cultura dos anos 1860 não haviam descoberto, todavia, as diferenças substanciais, que não se podiam evitar, derivadas da contradição de classe existente no seio deste movimento. As Sociedades de Cultura acolheram de bom grado e promoveram a extensão do movimento feminino burguês entre o proletariado feminino, considerando que esta difusão poderia ser um fator que contribuiria para que as proletárias exploradas, oprimidas por injustiças, tomassem consciência, vontade e entusiasmo na luta pela conquista da nova condição social. As Sociedades Operárias de Cultura criaram, com isto, as premissas psicológicas para o nascimento de um movimento feminino proletário.
A orientação de classe e as ligações organizativas iniciais foram avançando de forma gradual, paralelamente ao desenvolvimento dos sindicatos eisenachianos, como era lógico que acontecesse, já que sindicato significa luta de classes, se se quer dar ao término toda a sua significação histórica. O V Congresso das Associações Operárias que ocorreu em Nuremberg, em 1868, deu o passo decisivo para separar, na prática, os operários de seus tutores burgueses. A fundação dos sindicatos internacionais centralizados, como consequência da aceitação da resolução do Congresso de Vahlteich-Greulich, evocava o espírito da I Internacional, o espírito da luta de classes proletária. As diretrizes do Congresso Geral da Internacional sobre os Sindicatos seguiam sendo válidas para os partidários alemães do socialismo internacional. Tais diretrizes haviam sido aprovadas no I Congresso Geral das Associações Internacionais dos Trabalhadores, reunido em Genebra a princípios de setembro de 1866. As havia elaborado Marx; estas são algumas das passagens mais importantes:
Os sindicatos nascem da vontade dos operários que pretendem eliminar, ou ao menos reduzir, esta concorrência [entre eles C. Z. (N. R.)], com o fim de obter condições contratuais que os faça superar sua condição de simples escravos.
O objetivo imediato dos sindicatos se limitava, portanto, às necessidades do momento, a ser um instrumento de defesa contra as inumeráveis prevaricações do capital, em resumo, a questões de salário e de tempo de trabalho. Esta atividade dos sindicatos não somente está justificada, senão que é necessária. Não se pode prescindi-la enquanto subsista o atual modo de produção. Deve ser, inclusive, generalizada mediante a criação e a união dos sindicatos de todos os países.
Por outra parte, os sindicatos, sem serem conscientes disso, se converteram em pontos nucleares de organização da classe operária, de igual modo como os municípios e povoados medievais o foram para a burguesia. Se os sindicatos são imprescindíveis para a cotidiana guerra entre capital e trabalho, são, todavia, muito mais importantes em sua qualidade de instrumentos organizados para a abolição do mesmo sistema de trabalho assalariado…
Deixando de lado seus objetivos imediatos, os sindicatos devem aprender agora a atuar conscientemente como pontos focais da organização da classe operária, no interesse de sua completa emancipação. Devem apoiar qualquer movimento social ou político que tenda a este fim. Devem considerar-se e atuar na qualidade de defensores e representantes de toda a classe… e [ao mesmo tempo] devem convencer a todo mundo que suas aspirações estão muito longe de serem estreitas e setoriais, e de que seu objetivo é a emancipação das massas oprimidas.8
Se compare o amplo horizonte revolucionário destas diretrizes com as prescrições empíricas, de “realismo político” dos lassalianos a respeito dos sindicatos: sua oposição de princípio não necessitava em absoluto nenhum comentário. Dada a inequívoca orientação das resoluções de Genebra, e o caráter e exemplo da Associação Internacional dos Trabalhadores, era óbvio que se reconhecia às mulheres – operárias e pequenas empresárias – o direito de pertencer aos sindicatos internacionais. A justa enunciação teórica de princípio se converte em objetivo concreto, esforço, atividade prática. Depois da criação do Sindicato Internacional de Mineiros e Metalúrgicos, se funda em 1869, como segunda organização, o Sindicato Internacional dos Operários Manufatureiros, de Operários de Fábrica e de Operários Jornaleiros. Com isto se produz o primeiro grande avanço organizado das mulheres proletárias combatentes ao lado dos homens na luta contra o capital, que é a luta por sua plena emancipação. Com isto, o movimento feminino proletário alcança, pela primeira vez, sua própria unificação organizativa e ideológica. O significado de tudo o que aconteceu naquele período não pode ser plenamente avaliado se o compara com a rara claridade, as vacilações, os enormes preconceitos existentes, inclusive em amplos estratos do proletariado organizado, porém, sobretudo, se o compara com a nebulosidade, o absenteísmo e a subordinação moral das grandes massas proletárias. O movimento de classe organizado das proletárias, em seus primeiros anos de vida, desde 1869 adiante, é como uma andorinha que, como diz o provérbio, não faz primavera, porém cuja aparição enche o coração de alegria e de confiança porque anuncia a chegada da primavera.
1Arbeiterschaften: A tradução que parece respeitar mais o intento de organização de tipo sindical é, a nosso juízo, “liga operária”. (Nota literal da tradução italiana, resumida.)
2Max Hirsch e Franz Duncker. As Gewerkvereine haviam sido tentativas de criar (especialmente por parte de Hirsch) uma organização sindical baseada no modelo das trade unions e sob a insígnia da “paz social”: projeto abandonado pelo Congresso de Berlim de outubro de 1868, que promoveu a fundação da Arbeiterschaften.
3Louise Otto-Peters, Das Recht der Frauen auf Erwerh, op. cit., p. 103.
op. cit., página 103.
4Eduard Bernstein, Die Geschichte der Berliner Arbeiterbewegung (“História do movimento operário
berlinense”), primera parte, Berlim, 1907, p. 144.
5Groschen: um centavo de xelins, antiga moeda austríaca (N. T.)
6Franz Mehring, Geschichte der deutschen Sozialdemokratie.
7August Bebel, Aus meinem Leben («Recordações biográficas»), primera parte, Dietz Verlag, Berlim, 1953,
pp. 113-14.
8Karl Marx und die Gewerkschaften («Karl Marx y los sindicatos»), Berlim, sem data.





